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Expresso

A família e o trabalho

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Temos um problema colectivo de demografia. Os números são inequívocos. Portugal tem uma das mais baixas taxas de natalidade da Europa, já de si o continente mais envelhecido do mundo.

Esta situação é cada vez mais evidente e flagrante.

Urge fazer uma análise transparente e isenta que promova um entendimento entre os partidos políticos sobre este tema, pois a eles cabe tomar os passos necessários, para aplicar as políticas públicas necessárias, através da legislação que as enquadra.

2015 foi um ano em que nasceram mais bebés do que em 2014, com um modesto contributo positivo da parte do meu agregado familiar.

Este é, também por isso, um tema para o qual estou desperto.

Ser pai, hoje como sempre, é uma bênção, mas também um enorme desafio. A conciliação de um novo elemento na família com o trabalho exige redobradas preocupações e uma gestão familiar muito mais cuidada.

As vidas, como estão hoje formatadas, não permitem que o tempo seja flexível, ao contrário do anunciado nos primórdios da revolução da informação, inibindo o fortalecimento dos laços familiares.

Sejamos sinceros e directos, não há espaço para quer o pai, quer a mãe, terem filhos e trabalharem até tarde, como a vida laboral cada vez mais exige. Isto é uma evidência. Muitos são os casos de jovens que trabalham mais de 12 horas por dia. E que acumulam trabalho para levar para casa. Muitos são os jovens que hoje, fruto da grave crise geracional que se instalou, receberão menos do que a geração dos pais, um caso evidente de retrocesso geracional e social.

Ora como é que a trabalhar mais e a ganhar menos dá espaço para os filhos?

Não gostei de ver, na semana passada, a discussão entre os Partidos, com a já rotineira troca de acusações cá e lá perante as propostas do CDS, para o incentivo à natalidade. Este não é um tema ideológico, nem partidário.

Este é um tema urgente que custa a entrar na agenda nacional.

Li com agrado as propostas do CDS. Quer nos incentivos para a habitação, quer no incentivo no IRC, para empresas que apostem e promovam políticas de “apoio às famílias”.

Uma das principais preocupações para os pais é quando o filho adoece. O sistema de teletrabalho deveria ser mais incentivado nestas situações e durante os primeiros anos da infância, em que os cuidados são redobrados.

Um filho é uma mudança avassaladora no nosso dia-a-dia. Mais tempo a retirar ao trabalho, cuja ausência justificada foi aumentada, mas ainda assim não basta.

Sei que dinheiro, incentivos fiscais e afins são insuficientes perante a situação económica que o país atravessa. No entanto, esta é uma mudança importante a ser feita. E essa mudança é também cultural, não chega alterar a legislação laboral e fiscal. As empresas e as organizações não podem olhar de lado e de forma ríspida perante quem faz uso dos dias disponíveis e coloca baixa de assistência familiar. Muitos são os casos de críticas abertas ou veladas, de chefias e colegas, ao profissionalismo das pessoas que, perante os desafios e solicitações da paternidade e maternidade, têm ir para casa cuidar dos seus filhos, com passagem ou não pela escola ou infantário. Essa é capaz de ser a grande mudança a ser feita. E ser Pai é, cada vez mais, fruto da partilha equitativa de responsabilidades, o mesmo que ser Mãe.

A família e o trabalho podem e devem ser conciliáveis, não precisamos de olhar para longe na Europa que facilmente se encontram exemplos positivos. Na vida o trabalho é um elemento importante, mas não é, nem pode ser um fim em si mesmo. É um meio para constituir família e ser feliz, vivendo uma vida digna. Suspeito sempre de quem se assume, de partida, como workaholic. Respeito, porém não é o número de horas gastas no trabalho que faz a produtividade e a qualidade do trabalho subirem. Pelo contrário. O respeito por horários adaptados, às vidas familiares, o corte nos cafés a meio da manhã, a meio da tarde e nos almoços demorados, aí sim deveria existir contenção. Seria muito mais produtivo do que horas sem fim no local de trabalho.

E já agora a componente de ser feliz. É bom não esquecer que a economia e a política devem prosseguir o objectivo primário do ser humano: ser feliz, sentir-se realizado.