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Expresso

Os Presidentes e a banca

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Vivemos num tempo de grande excitação em torno do novo Presidente da República. Não há dia em que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não inaugure, comente ou tire uma selfie.

Em contraponto, parece que falar de Cavaco Silva é falar de um tempo que nunca existiu.

Um dos exemplos mais evidentes, da diferença, foram as comemorações do 25 de Abril. Tudo luzia e tudo eram cravos. Até o coro e as palmas soaram mais fortes. Foi como se, de um momento para o outro, o Presidente Marcelo viesse fazer luz sobre as trevas em que o Presidente Cavaco se apagara. Cavaco Silva não tinha o cravo na lapela, Marcelo Rebelo de Sousa, em contraponto, entrava na Assembleia da República com o cravo na mão.

A transição de um Presidente para outro tem sempre um período de adaptação à mudança. Trocámos um institucionalista, por um homem de afectos. Tudo o que é protocolo rígido é para quebrar. Tudo o que antes era ponderado e reservado, é hoje aberto e emocionante.

Os dois perfis são em tudo díspares. Fazendo a ponte com outra esfera, esta mudança tem alguma similitude com os dois Papas que existem hoje. Bento XVI, papa emérito, mais sisudo e fechado, ao contrário de Francisco mais caloroso e mediático.

Todavia, se até aqui só falei de estilo, temos de ir à substância: para que serve o Presidente da República?

As últimas eleições e a campanha eleitoral não permitiram uma discussão profícua e esclarecedora. Com uma cobertura jornalística mais enformada como um concurso de celebridades do que como uma disputa eleitoral, onde se devia discutir política. Discussão sobre o papel do Presidente ou sobre o actual sistema político foi coisa que não se viu ou ouviu. Se calhar, pode até não interessar a ninguém…

No entanto, um Presidente da República tem um papel fulcral no quadro institucional da democracia portuguesa. De árbitro e de garante do regular funcionamento das instituições.

Deve ser uma reserva moral do País. Deve medir bem as palavras, a palavra é um dos seus principais instrumentos de acção política. É ela uma das forças do poder do cargo de Presidente.

Não digo que não seja um activo para puxar pela motivação dos portugueses, mas deve ser usada para ajudar à boa navegação da nau Portugal, numa altura em que não estamos a salvo de eventuais intempéries económicas e políticas, vindas de dentro ou do ambiente externo.

Toda esta conversa a propósito de um pecado comum aos dois Presidentes: a Banca. Essa tentação à qual não resistem a comentar e a dirigir-se em público.

Cavaco Silva falou, antes do colapso do BES: “que os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo dado que as folgas de capital são mais que suficientes para cumprir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa”.

E Marcelo Rebelo de Sousa, sobre o BPI assumiu logo que "Estou satisfeito pelo facto de ter sido fechado o acordo. Foi obra da intervenção dos privados, das entidades reguladoras e dos órgãos do poder político. Sem a intervenção de todos não teria sido possível chegar onde se chegou".

São duas situações em que não gosto de ver o Presidente da República a intervir, sobretudo quando as palavras proferidas são posteriormente negadas pelos acontecimentos. Acaba por deixar mal quem deveria estar resguardado quanto a estes assuntos de ordem financeira, tanto mais que são da competência dos reguladores e do Governo.

Um Presidente da República pode e deve trabalhar nos bastidores, exercer a sua magistratura de influência, construir pontes e potenciar os diálogos, juntar as partes desavindas, só não pode ver a sua palavra ficar desacreditada perante o país que o elegeu.

Bem sei que durante muitos anos a Banca e os “Banqueiros” exerceram um certo fascínio na classe política, mas é bom que cada coisa esteja no seu devido lugar.