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Expresso

Portugal em transição

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O mundo mudou. Frase epítome da mudança. Neste caso podemos concretizar um pouco mais. O foco vem até Portugal. Portugal transformou-se. E vivemos todos os dias essa mudança.

É bom começar a encarar esta mudança e começar o processo de adaptação.

A entrada da Troika, em 2011, alterou não só a nossa economia mas também a nossa maneira de fazer e percepcionar a política.

Hoje, os desafios e os interpretes são outros.

Presentemente, assistimos, pela primeira vez, na história da nossa jovem democracia, quase 42 anos ainda é pouca idade para um regime político, a um Governo com apoio à esquerda. Vimos um Orçamento de Estado aprovado pelo PCP. Inaudito. Não sei se o muro caiu, ao retardador na Soeiro Pereira Gomes, ou se o PS pulou a cerca. Sei que em quase 42 anos de democracia, pós-25 de Abril, isto nunca se viu.

No meio destas mudanças estruturais, no sistema político português, percebemos que muito ainda tem de ser melhorado no plano ético e moral. Esta foi a semana de Maria Luís Albuquerque. Como sempre, neste país já muitos se investiram no papel de juiz, júri e carrasco e leram de imediato a condenação à “morte política”. Sim, uma ex-Ministra das Finanças ir trabalhar para o sector financeiro é um ponto sensível e propenso a simplismos demagógicos. No meio desta cortina de fumo mediática e das redes sociais em que pululam os vestais guardadores da moral e da probidade públicas, apenas saliento que não deveria continuar como Deputada. Seria o mais sensato a fazer e de maior lisura. Mas é bom ter memória, sobretudo em política, onde ela é intermitente ou escassa. E relembrar que Manuela Ferreira Leite tão rápida a puxar do gatilho, da crítica destrutiva, não se recorde do seu próprio percurso. De Ministra das Finanças a administradora do Santander Totta.

O Santander Totta que venceu, em Londres, o caso dos Swaps. E que vitória. Todavia, convém lembrar, foi num tribunal inglês. Num Reino Unido que anda com dúvidas sobre a sua continuidade na União Europeia.

Um caso exemplar que Portugal mudou mesmo. De facto, ou se é engraçado ou se cai rapidamente em desgraça. Numa semana horribilis para Maria Luís, este caso vem com factura apontada à sua decisão. E voltamos à memória, ou à falta dela. Quem procedeu aos nove contratos swap que foram celebrados entre 2005 e 2007 para cobrir o risco de taxa de juro?

Pois, citando Jorge Coelho: existe muita falta de memória na política portuguesa. Já agora, por falar em Jorge Coelho, temos um caso exemplar sobre a saída de um titular de cargo público para um lugar no privado, no sector anteriormente tutelado. E poderíamos recuar, um pouco mais, até Joaquim Pina Moura ou Ferreira do Amaral. Exemplos e casos similares são vários. Nos laranjas e nas rosas.

De facto, vivemos um tempo de transição, de fluxo. Em que a maneira de fazer política começa a ser cada vez mais nivelada por baixo. Bem fez o maior político não-político deste País. Uma pessoa que cessa agora funções. Cavaco Silva sai como o homem que ninguém conhece e em quem ninguém votou. No entanto, no currículo repousam 20 anos de poder executivo.

E dez anos de espera, estratégica e oportunística, pontuada por alguns tristemente, célebres artigos.

A mudança também se faz em Belém. Esta semana trocamos o não político pelos afectos transversais.

É bom, contudo, reflectir sobre o que foi o legado de Aníbal Cavaco Silva em Belém. Entre os temas que dominaram a agenda mediática e o atingiram directamente, é bom relembrar que Cavaco falou de inovação, de diáspora e do Mar. Temas muito badalados, mas que o Presidente puxou e avisou. Uma nota para esta semana, uma semana intensa, foi bom assistir ao Conselho de Ministros com a presença de Cavaco Silva. Podia virar regra ao invés de mera prenda de despedida.

Os novos protagonistas têm a palavra e o palco para si. E, a partir de 9 de Março, começa um tempo novo em Belém. Da campanha pouco ficou, para podemos adivinhar o que será o futuro.

Afectos, pontes, consensos?

Sim, somos e estivemos privados deles. Mas não basta. Será preciso agenda, mais do que simples roteiros. Serão precisas bandeiras, verdadeiros desígnios nacionais e verdadeiras convicções. Não ao sabor de sondagens ou simpatias, ou tacticismos de circunstância. Será preciso um líder que inspire pela palavra e pelo exemplo. Afinal para que serve um Presidente da República?

Estamos em transição. Que esta se faça com toda a tranquilidade. As mudanças bruscas e disruptivas podem ser muito tentadoras, mas acabam por ser ilusórias. Não queremos que tudo mude, para que fique tudo na mesma. É preciso muito bom senso, prudência e já agora uma ponta de sorte. O nosso fado não tem que ser sempre melancólico e fatalista.