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Expresso

Sociedade egoísta? Não, obrigado

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Os episódios sucedem-se, os choques multiplicam-se e esporadicamente paramos, por instantes, para pensar. A semana pretérita trouxe-nos, à vista destapada, com a provável morte de três crianças, num caso por alegada incúria dos pais mais entregues à prodigalidade do jogo, noutro uma mãe e dois filhos provavelmente perdidos nas inclementes águas frias do rio, em Caxias. São mais dois casos, a juntar a tantos outros, que não chegam aos holofotes e paragonas de capa da comunicação social.

Que sociedade é esta em que nos estamos a tornar? Onde prevalece o individualismo e o capricho?

Isto é conjuntural e sociológico, das famílias às organizações. Cada vez gastamos, ou será desperdiçamos, mais tempo com o imediato e perdemos a noção do que realmente importa.

As famílias desagregam-se e vivem entre e dentro dos seus telemóveis, talvez mais assisados do que os seus proprietários. A conversa e os afectos são substituídos pelo canal Panda ou pelo tablet. É muito mais fácil e dá menos trabalho e chatice.

Nas organizações, esta tendência está trendy, seja pelas reuniões cada vez mais rápidas e eficientes e pelos assuntos tão passíveis de simplificação que podem ser despachados singelamente por e-mail. A cultura do e-mail ajuda e faz registo, mas afasta, podendo ser redutora da complexidade de assuntos superficialmente óbvios, e despersonaliza.

Já enviei o e-mail. Já seguiu pronta a resposta. Cada um no seu casulo. Cada um no seu canto e cada um a passar a batata quente de mão em mão, antes que queime. As organizações são feitas por pessoas. Com personalidades diferentes e história própria, mas só se movem com as pessoas. Por mais máquinas, automatismos e softwares que se instalem.

Hoje cada pessoa procura valorizar-se e destacar-se, quanto mais não seja acotovelando, quem for preciso, para se chegar à frente. Trabalhar em equipa é um conceito que se acha caro e antiquado. Por outro lado, nos CVs vem sempre a frase habitual de que fez parte de uma equipa e trabalhou com 6 ou até 60 pessoas. Consoante o número de trabalhadores da entidade por onde passou. Estão sempre todos sempre superqualificados e são todos muito pró-activos, asseguradamente dinâmicos e com uma atitude de trabalho em equipa do mais friendly que pode haver. Todavia, no final das contas, acaba, não raras vezes, cada um por si.

É a nova lei da selva. É a competição levada ao limite, o chamado dog-eat-dog ou coisa antiquada, como diziam os antigos, Homo homini lupus est. Diz que é a meritocracia. Dizem os neodarwinistas dos mercados omniscientes e sempre eficientes. É tudo isso e um pouco mais. Todos aprendemos que na selva vivem os animais, contudo, mesmo aí, prevalece um equilíbrio no ecossistema, que não é autodestructivo. Nós, os Humanos, os animais racionais, vivemos num mundo onde a civilização, a harmonia e o respeito deveriam ser essenciais.

Para cada uma das “luminárias”, ou seres “bem pensantes”, que pontuam por muitos pináculos, qual farol que ilumina as trevas onde a Humanidade vive, e vejo tantos por aí, que acreditam nas suas potencialidades sem olhar a meios ou parceiros, é caso para dizer que a vida se encarrega de demonstrar que sozinhos podemos ganhar, porém vitórias sem partilha serão sempre derrotas. Vencer sozinho é de uma frustração enorme. As organizações são mais eficientes consoante a sua capacidade de adaptação e de preservação de um bom ambiente. O lucro não pode ser o fim único e absoluto. É um meio. Não basta falar de stakeholders é preciso ouvi-los e respeitá-los.

Tal como é importante respeitar e preservar a parte familiar. Não somos autómatos que nos apresentamos ao serviço. Precisamos de qualidade de vida para melhor respondermos aos desafios. E por isso importa dar espaço a cada ser humano. Para trabalhar e para viver em harmonia com os seus colegas e com a sua família, a unidade básica da sociedade.

Os casos que comecei por enumerar são distintos, mas são prova de uma humanidade amputada. Ser pai ou mãe não é um mero capricho, ou um desejo que se tem, implica entrega, trabalho e amor para dar. É arrepiante ver estas histórias tétricas, que mal-grado se repetem.

Bem sei que temos um problema demográfico, porém devemos saber construir uma sociedade que possa acolher os seus novos cidadãos neste mundo. Com carinho e entrega. E com a dignidade que a condição humana exige e merece.

A economia é parte integrante do bem-estar da família. Mas a sociedade deve organizar-se para melhor se adaptar ao bem mais precioso: a família.

No meio destas ideias abstractas, gostei de ver a petição que chegou à Assembleia da República para o aumento para seis meses da licença de maternidade, paga a 100%. E gostei da pronta resposta do Bloco de Esquerda e do PCP, prontos a ajudar a mãe, a criança e a família.

A economia deve ser sustentável e eficiente. Todavia a economia deve sempre respeitar e ter como centro o ser humano, pois sem ele de nada vale.