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Expresso

Presidenciais: os super-homens não existem

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O País falou. E falou bem alto e de forma inequívoca. O Presidente eleito Marcelo Rebelo de Sousa sucede ao Presidente cessante Aníbal Cavaco Silva. Não há margem de erro para recontagens ou espaço para coligações. O voto foi claro. É eleito quem venceu as eleições com o maior número de votos.

Estamos, de facto, a viver um tempo novo. O regime quis, e tem hoje, Marcelo Rebelo de Sousa a Presidente e António Costa a Primeiro-Ministro.

Marcelo Rebelo de Sousa é o segundo político do Centro-Direita a ter mais de 50% dos votos num acto eleitoral à escala nacional.

A mudança que se entrevê poderá ser enorme. Marcelo não é, nem de perto, nem de longe, Cavaco.

Esta foi e é uma vitória de um homem só. Foi à sua maneira. Sem cartazes, pins, bandeiras ou esferográficas. Mas desenganem-se os mais sonhadores, um homem eleito com mais de 50% não chega para tudo. Não existem super-homens que vençam e façam com que tudo mude.

O Presidente Marcelo tem agora um período para fazer as suas escolhas e preparar um mandato de cinco anos. Que escolha bem e ponderadamente, com calma e sem precipitações. Que escolha bem quem lhe diga as verdades e não quem “lhe preste culto”. Que não tenha medo das sombras. Muitos líderes perdem-se e perdem nas escolhas de quem os acompanha. Têm medo das opiniões contrárias, confundem crítica honesta com ataque pessoal. Assumem liderança pelo medo e revelam falta de humanismo e olvidam a empatia. Um verdadeiro líder escolhe os seus e retira o melhor das suas equipas, levam-nas ao sucesso, que será também o seu. Sabe motivar e potenciar quem é crucial para o seu sucesso. O cargo de Presidente é unipessoal, porém tem e deve contar com uma equipa à sua volta, que se tornará tanto melhor quanto melhor líder quiser e fizer com que ela seja. O tempo não está para super-homens, para ungidos, qual “escolha divina”, que sirvam de panaceia para todos os problemas e males por resolver . Ninguém consegue alcançar nada sozinho. As super-estrelas são no cinema ou como comentadores, que falam sem a pressão da tomada da decisão e das consequências que qualquer decisão complexa acarreta, para si e para os outros. No exercício dos cargos, nomeadamente de serviço público, não há super-homens. Existem homens de carne e osso com defeitos e com virtudes. Existem pessoas que merecem respeito, independentemente de concordarmos ou não com as escolhas que fazem. E o segredo do sucesso está na forma como o líder se relaciona com os que o rodeiam e com as pessoas no geral.

Existem, hoje, de forma relativamente consensual dois grandes líderes mundiais. O Presidente Barack Obama e o Papa Francisco. E o legado dos dois é de simplicidade, mas também de lideranças pelo respeito, com um forte pendor humanista, e não pelo autoritarismo. São líderes de e para um tempo novo por saberem estar e saberem promover o bem comum. Com respeito e autenticidade. Liderar, seja como Presidente da República, seja em qualquer organização, obriga a uma forte sensibilidade e capacidade de adaptação ao ar dos tempos. Saber como potenciar o melhor de quem os acompanha. Saber que só do respeito e do bom ambiente pode ser fomentado o sucesso. Saber que, como dizia Timothy Gallwey, consultor da Apple e da Coca-Cola, “Uma organização baseada no medo é menos eficaz em 15%.” E é mesmo. Quem lidera com base no terror e no medo, quem lidera pela negativa, fica preso na sua torre de marfim, agarrado às suas desilusões. Não pode estar bem consigo, o que se reflecte nos outros e na perda de eficiência e produtividade, que advém da desfocagem do principal e da centragem no acessório.

Esperemos, para o bem de todos, que Marcelo Rebelo de Sousa desempenhe o cargo, para o qual foi agora eleito, com sentido de Estado. Que saiba estar à altura das suas responsabilidades quando exercer o cargo de mais Alto Magistrado da Nação. Um Presidente da República deve ser um árbitro, não um jogador com o equipamento errado vestido. Relembro Benjamin Constant, pensador francês e defensor do poder moderador do Presidente. Esperemos do novo Presidente que sinta o espírito e a vontade dos portugueses. Que saiba interpretar a vontade colectiva, mas saiba comunicar e contactar com as pessoas. Que não se feche no Palácio de Belém, isolando-se do país real e dos seus problemas. Saiba que as pessoas precisam de ser ouvidas. Precisam de ser entendidas, têm problemas que é preciso ajudar a resolver, começando, desde logo, por apontar onde estão . Afinal de contas somos uma República soberana, onde o Presidente é o moderador, no entanto, não é um moderador sem voz. A sua magistratura começa na palavra, que a saiba usar bem.