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&conomia à 2ª

Eleições presidenciais: uma anedota

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Estamos em ano de eleições presidenciais. Depois de dez anos de mandato de Aníbal Cavaco Silva, o primeiro Presidente da República a ser eleito sem que alguém se recordasse de ter votado nele, estamos perante uma cacofonia de candidatos a sucessor.

Uma campanha de bradar aos céus. Onde dez pessoas, uma por cada milhão de portugueses decidiu avançar com a sua candidatura. Até aqui tudo bem. Cada português com mais de 35 anos tem todo o direito de se candidatar ao cargo de mais Alto Magistrado da Nação.

No entanto, o que esta campanha presidencial tem demonstrado é o nível, que dos 9 candidatos de esquerda e 1 assim-assim, é muito discutível.

O país atravessou um período de forte austeridade. Com consequências tremendas no plano económico, financeiro e social. Com erros e com sucessos. No entanto, apesar de não estarmos perante uma eleição para decidir os destinos da Governação, mesmo os candidatos mais distraídos deviam saber que cabe ao Governo, a um Presidente da República exige-se visão e noção do país, dos seus problemas efectivos não daqueles vistos a partir do conforto de um qualquer gabinete.

Até hoje, e já são muitos os debates, não temos uma visão para Portugal. Não sabemos o que pensam os dez candidatos sobre o nosso futuro como comunidade. O que querem para o país e como pensam implementá-lo nos cinco anos que ambicionam passar no Palácio de Belém. Afectos, proximidade e passeatas na rua. Muito bonito, sobretudo numa quadra de Natal que já passou. Mas e o país? E a corrupção, sem ser mera arma de arremesso especulativa? E o combate à pobreza? E à coesão social e territorial? E as lições que devemos retirar destes anos? Tempo novo, exclamam uns. Mas tempo de quê? De mais dívida ou de austeridade disfarçada? E onde deve Portugal apostar em matéria de Relações Internacionais? E o que deve Portugal fazer com a sua Diáspora? E qual o papel de Portugal na União Europeia? E que futuro para a União Europeia? E o mar? E a cultura e a língua portuguesa?

E qual o papel do Presidente? Mais ou menos poderes? E o sistema política, que reformas? E o sistema eleitoral? E o papel do Parlamento?

São tantas as questões de ordem políticas, económicas e sociais cuja resposta permanece em branco. Da grandeza e da estratégia que devem ocupar um Presidente da República olhando para esta animada campanha e percebemos que nem vestígios aparecem, debater o número de calçado e os almoços de Chefes de Estado em lares é mais um exemplo dos problemas críticos que ocupam as mentes dos candidatos.

Obviamente que Marcelo Rebelo de Sousa partiu em vantagem, tantos anos de comentário político garantiram uma sólida rodagem nos televisores dos portugueses. Para além de que não tem um oponente óbvio. Por muito respeito que mereçam todos os candidatos, pois a corrida presidencial implica sacrifícios pessoais. No entanto com toda a exposição mediática que leva no bolso há algo que o candidato Marcelo Rebelo de Sousa não consegue disfarçar, como se viu nos debates, por exemplo no último com Sampaio da Nóvoa, e que Pedro Passos Coelho sintetizou de forma lapidar: catavento errático. A cada novo debate é tudo e o seu contrário.

É este o nosso destino colectivo. Isto numa semana que foram dadas duas entrevistas esclarecedoras por duas personalidades que muito elevariam o debate presidencial e o cargo de Presidente. Não tenho dúvidas que chegados a estas eleições, percebemos que António Guterres e Pedro Santana Lopes, entre outros nomes relevantes que se afastaram da disputa, seriam muito mais interessantes e trariam maior densidade no pensamento político para o futuro do país.

Passamos o tempo a falar da falta de qualidade dos políticos e da sua falta de preparação. E ironia do destino chegamos a uma eleição presidencial com uma enorme superficialidade, na discussão dos temas relevantes para o país e para a vida das pessoas, que nos faz suspirar pelos debates entre Cavaco, Alegre e Soares. Quem diria…