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Expresso

Abre-se espaço político para novos atores?

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Agora que 2015 é passado e entramos em 2016, considerado, segundo o Ano Chinês, o ano do Macaco, a tendência é para balanços do ano pretérito e desejos para o novo ano que entra.

Olhar para trás, pelo espelho retrovisor do tempo, é perceber que 2015 foi um ano intenso. Em termos económicos, políticos e sociais.

Em 2015 tivemos a retirar as últimas grilhetas da austeridade, a debelar falências bancárias e a fazer o que desejamos seja a inversão, que tem sido custosa e dolorosa para todos, sobretudo os mais frágeis da nossa sociedade, do ciclo económico. Pelo menos no que à Europa diz respeito. Nos EUA já se respiram os ares da mudança, plasmados nos números do crescimento do PIB e nas baixas taxas de desemprego.

Vemos o fim do ciclo de Obama, que inaugura uma corrida presidencial que promete continuar a dar que falar em 2016 e vimos o mundo perdido, em particular o nosso continente, entre a crise de Refugiados e os atentados terroristas. Sim, a globalização está aí e não é apenas comercial, económica e tecnológica. Também é, e muito, humanitária.

Portugal não foi exceção. Depois de anos de ajustamento e austeridade, os indicadores voltaram a dar sinais de esperança, mas ainda de forma tímida.

No entanto, o que dizer do ano que passou em termos de política nacional? Quem diria à luz de 2015 que este ano político aconteceria? Penso que poucos acreditavam que António Costa não ganhasse as eleições. Mas aquilo a que assistimos foi a um, contra as expectativas e desejos de alguns, combativo candidato Pedro Passos Coelho na campanha eleitoral e a um negociador nato António Costa no dia a seguir as eleições. Onde um falhou e o outro acertou, trocaram de papéis a partir de 4 de Outubro.

De 4 de Outubro em diante a política em Portugal mudou. Não gosto e fico cansado das parangonas “novo ciclo”, “tempo novo” e sucedâneos. O facto é que “isto” mudou. A fechar o ano vimos partir Paulo Portas, com o instinto político e a astúcia de quem percebeu, que este é um tempo para dar espaço a novos intérpretes.

E é mesmo. Nunca, desde 1985, existiu tanto espaço para o surgimento de algo que dê uma nova dinâmica à política em Portugal. Existe hoje, fruto dos resultados eleitorais, da coligação governativa e dos partidos que hoje estão na oposição, da conjuntura económica e do forte ajustamento que sofremos, uma janela de oportunidade para uma nova tendência política em Portugal.

O espaço entre este PS e o atual PSD e CDS é mais do que suficiente para uma nova agenda de prioridades para o país. Refrescante. Com caras novas e ideias sensatas e inteligentes, capazes de tentar fazer melhor. Sabendo que Portugal está inserido na União Europeia e na Zona Euro, respeitando esse legado e esse compromisso, mas não baixando a cabeça e os braços perante as exigências que se colocam. Percebendo que a discussão estéril entre capitalismo e socialismo soa anacrónica. Que no mercado financeiro desregulado, a regulação não pode ser mera palavra de encher ou poiso para sinecuras. Que um Estado deve ser eficiente e desburocratizado, mas também urge que seja solidário e faça providência a quem realmente precisa. Que encare o combate à pobreza como uma luta diária e procure dar dignidade a cada cidadão. Que a saúde é prioritária e que a educação, não é uma paixão juvenil, mas um pilar para um país que se quer competitivo. Que cada pessoa deve ter a sua liberdade e direitos humanos respeitados e que a igualdade de oportunidades não pode ser um conceito abstrato, mas algo que se procura implementar com o esforço denodado que os cidadão merecem. Que não podemos viver de um Estado meramente subsidiário.

Há espaço para alguém que não fique paralisado no “sempre foi assim”, amarrado às convenções que garantem a posição de alguns à custa dos muitos. Espaço para procurar pôr fim a um Estado em que acabem os pequenos favores que se transformam, como múltiplas e demasiadas vezes temos assistido, em golpadas de colarinho branco. Que se perceba que temos um problema sério: as gerações mais novas irão receber, em média, menos que os pais e que esse impacto geracional é um retrocesso civilizacional, que nos deve impelir à ação. Com impacto na demografia, na emigração e consequentemente na Segurança Social conforme a concebemos. Todavia estas contrariedades não podem incentivar ao desligar da política e da participação cívica. Há espaço para se apelar à participação política como sendo uma responsabilidade de todos, variando a intensidade, com que cada um se envolve, mas que a busca deve ser uma e apenas uma: a felicidade e o bem-estar a comunidade nacional.

Não sei se existe essa vontade, se é através dos atuais Partidos ou se teremos novas entradas no espectro partidário como em Espanha vimos com o Ciudadanos ou o Podemos. Sei que existe espaço para, de forma moderada, sem cair em radicalismos inconsequentes que levados ao limite são nefastos, fazer diferente para melhor. Alguém que tenha uma mensagem e uma visão política estratégica pode muito bem chegar e conquistar muitos desiludidos e desencorajados. Que a lucidez acompanhe quem vier e que venha por bem.