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&conomia à 2ª

A saúde acima de tudo

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Estamos numa quadra especial. O Natal o tempo da família e do descanso. Nesta época que passamos com aquelas que são as pessoas que mais gostamos devemos estar gratos por vivermos num país, que apesar das dificuldades que em conjunto procurámos e procuramos sempre superar, se vive em paz e onde a guerra e o conflito são imagens de locais distantes.

Entre o bacalhau e a filhó muitos SMS são trocados e muitos votos desejados. Neste tempo apenas rezo e peço uma coisa, bem como apenas a desejo a quem contacto, saúde. Não há bem maior do que ter saúde. Podem todos ser muito ambiciosos.

Podemos pedir dinheiro e muito sucesso. Podemos pedir casas e carros, muita roupa e muitos brinquedos. Mas sem a saúde, perdoem-me as almas mais angustiadas com a ambição material, ninguém usufrui do que conquista. É que o corpo humano, por mais que existam diferenças sociais é igual para ricos e pobres. Não há distinção. Se vem uma maleita forte, não há casa ou dinheiro que nos salve.

Vem isto a propósito do papel do Estado. Se há valor maior e em que nunca, por nunca, deva ser reduzido o investimento é na saúde. Não há, nem pode existir um único português sem acesso a um livre e rápido Serviço Nacional de Saúde. Não acredito num Estado que fecha a porta de um hospital a quem precisa, ou a mantém aberta sem as devidas valências a funcionar.

Podemos discutir o papel do Estado, onde pode e deve intervir, onde apenas precisa de regular ou onde não é de todo necessário. Agora, no que diz respeito à saúde, não podemos negar esforços, nem andar em cortes cegos. Não digo que não tenha de haver racionalidade nos gastos, bem como ponderação dos custos. É preciso gestão e uma gestão cuidada e ponderada. Rigorosa. Todavia não se façam confusões, rigor não significa cair no economicismo, não se pode cair na escassez de sensibilidade social.

Gostei de ler há umas semanas que o novo Ministro da Saúde, Adalberto Fernandes, queria um SNS mais humano e menos quantitativo. Cada doente não é um número. É um ser humano que precisa de ser tratado, de obter tratamento para a sua doença, alívio para o seu sofrimento. Vem toda esta reflexão a propósito do caso que nos chegou do jovem que faleceu por falta de atendimento adequado no Hospital de São José. Como é possível isto acontecer em pleno século XXI? Num tempo de tecnologias e facilidade de comunicações e de transporte. Não existem neurocirurgiões vasculares no São José ao fim-de-semana? Então porque não é logo enviado para Santa Maria? A região de Lisboa não tem resposta, aos fins-de-semana, para estes casos?

E como se pode permitir que um hospital receba doentes com uma patologia para a qual não têm capacidade de resposta?
Isto é trágico e foi mais uma vida que se perdeu, de qualquer forma, aguardemos pelo necessário processo de averiguações que se impõe, provavelmente negligente. Uma família passou um funesto Natal. Não podemos deixar passar em claro, nem podemos baixar os braços. Ontem foram apenas umas pessoas que vimos na TV, amanhã não sabemos à porta de quem estas trágicas circunstâncias podem bater. Para quando haverá em Portugal uma visão preventiva e não uma postura reactiva, sempre a correr atrás do prejuízo?

Não é apenas este o caso mais grave. O abandono de idosos em hospitais é mais um flagelo que ocorre nesta época em que o importante deveria ser o apoio à família. Para não acrescentar o problema das listas de espera para operações e por aí fora.
Nesta quadra, que todos estamos mais predispostos ao sentimento, não podemos deixar de reflectir. Mais do que salvar bancos, a maior prioridade que um Estado tem de ter é salvar vidas. O papel do Estado, as gorduras e excessos, de um monstro burocrático e de negócios que cresce e pouco acrescenta tem que ser posto em causa. Mas o bem maior é, para mim, bem claro.
Haja saúde, que os bancos e as crises financeiras logo se resolvem.