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Expresso

Acabou a austeridade

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Austeridade foi palavra que entrou em força no nosso léxico e nos acompanhou ao longo de 4 anos. Origem? O pedido de resgaste financeiro que Teixeira dos Santos se viu obrigado a solicitar.

Bem sei que também nesta última campanha eleitoral procuram outro emissor do pedido de resgaste. Mas a história nunca engana e por mais que tentem obnubilar a narrativa, a história não se reconstrói e a assinatura na carta, endereçada a Strauss-Kahn, que acompanha o programa de ajustamento, acordado com o FMI, é, enquanto Ministro de Estado e das Finanças, a de Fernando Teixeira dos Santos.

Todavia austeridade é palavra do passado com fim à vista, vide declarações do putativo Ministro Mário Centeno.

Não sei quantos Ministros em exercício já anunciaram ou previram o fim da crise. Ainda sou do tempo do Ministro Manuel Pinho decretar o fim da crise em finais de 2006. Noutra vida, bem sei. Mas fê-lo com pompa e circunstância. O pior foi a circunstância seguinte. Sim, o contexto internacional não ajudou, mas quando a crise de 2008 chegou e embateu em força neste país abalou-nos de tal ordem que as ordens, vindas de fora da Europa e FMI, foram mesmo o caminho da austeridade.

Hoje, com os novos amanhãs que ainda afinam a voz à procura de cantar, qual acordo tripartido, o fim da austeridade chega a toda a velocidade. Mário Centeno, autor de um cenário macroeconómico que parece estar em modo estaleiro de obras tais as remodelações a incorporar, na planta original, com um acordo aos bochechos perante o Bloco de Esquerda e o PCP, vem de forma cândida decretar o fim deste ciclo.

Percebo a as boas intenções. Provocar uma nova onda de esperança e entusiasmo na economia portuguesa. Ainda assim, se esta onda surge agora será apenas o fruto de um cenário ou de um acordo? Será que decretar o fim da austeridade não é o maior elogio económico que se faz aos senhores que governaram estes últimos quatro anos?

É que se formos critério a critério, percebemos que o país de hoje não se compara com o de 2011. Ao nível de credibilidade internacional, ao nível dos juros da dívida, ao nível das exportações, dos níveis de confiança, timidamente bem sabemos, ao nível da descida do desemprego e por fim, mas não de somenos importância, hoje, Portugal pode definir o seu orçamento sem esperar pelos senhores da mala, entenda-se a Troika.

Não existe maior humilhação e camisa de forças para um país do que precisar de ser gerido por entidades externas. Fazendo do nosso voto e da nossa vontade, meros instrumentos de apoio à gestão que é definida de fora para dentro.

Agora, quando o pior já passou, quando o país sofreu e se sofreu, vir decretar o fim da austeridade, peço desculpa, mas hoje é fácil. Hoje é possível. Não podemos ser ingratos, coisa que na vida política do país existe em demasiada abundância, o caminho e a história só podem honrar quem navegou, quando era grande a tormenta, quando nos fustigavam os ventos de Bruxelas e as altas vagas dos mercados batiam em frágil casco. A nossa economia sofreu um processo de ajustamento muito duro e intenso. Está hoje a dar sinais de recuperação, mas não é tempo de deitar abaixo este caminho. Ainda não é tempo de atirar foguetes e de exuberâncias pouco avisadas.

Acabou a austeridade? Diria que é tempo de calibrar a trajetória orçamental com responsabilidade. Mas sim, meu caro Professor Mário Centeno, se o pode afirmar hoje não foi certamente apenas por mérito do seu cenário patrocinado pelos seus camaradas. Foi possível chegar aqui por que há um país que sofreu e soube resistir contra ventos e marés.