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Expresso

Fazer de conta

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Com a instabilidade política que vivemos, tudo ganha uma dimensão extraordinária.

Tomou posse o XX Governo Constitucional, com novos Ministros e Secretários de Estado. No entanto, este novo Governo dos resultados eleitorais do passado dia 4 de Outubro, está condenado à nascença.

Este ponto é mais um, entre infelizmente demasiados, que mina a credibilidade dos políticos. Como pode alguém rejeitar, logo à partida sem o ter visto, um Programa de Governo que não conhece?

Esta abstrusidade está a gerar um impasse. Estamos a viver um momento de tensão política, em que esquerda e direita parecem estar tão acantonadas, no domínio da retórica política, como durante o período conturbado subsequente ao 25 de Abril.

De um lado um Governo condenado, do outro um acordo, em negociação que aguarda conclusão, que tem como ponto único “correr com o actual Governo”.

Esta tensão e incerteza quanto ao futuro prejudicam o nosso País. Em muitos sectores, nomeadamente no mundo empresarial. São muitos os empresários que hoje metem os seus planos de investimento em espera, aguardando uma clarificação. Como encarar o próximo ano? Com um orçamento de rigor, que respeita os nossos compromissos externos, ou com um orçamento expansivo que promete fazer chover o maná? É que perante os sinais que vamos recebendo de devolução de cortes de salários e pensões, se houver acordo à esquerda, de algum lado terá que vir a receita para compensar a despesa. Virá do IRC? Das empresas? De impostos especiais?

Não sabemos. Tudo é nevoeiro. Tudo está preso por arames e sem consistência.

Estamos mesmo a precisar de uma clarificação, que terá de começar pelo regresso à fonte da democracia. Ou seja, devolver a voz aos portugueses. Que bloco político querem? De forma clara e assumida perante os eleitores que escolham, entre esquerda ou direita, quem querem a governar.

O Presidente, em final de mandato, não pode dissolver a Assembleia da República? Este poderia ser um ponto a ponderar, em sede de revisão constitucional. Estamos num impasse. Precisamos de soluções.

E porque não, caso o PS fique preso no seu próprio labirinto e não assuma a sua responsabilidade para com o país, um Governo de gestão? Será assim tão nefasto para Portugal? Nunca aconteceu? É voltar à história.

Todavia, os ataques feitos ao actual Presidente têm sido não raras vezes quase que fruto do alucinatório. E mais extraordinário é que quase ninguém o defenda, quando a indigitação, que tanta comoção causou, em certos sectores, não foi mais do que o normal funcionamento do regime democrático. Sintomático como lição sobre os malefícios da cobiça pelo poder.

Tal como é sintomático que, perante este impasse, não exista um candidato à sucessão de Cavaco Silva moderado e que represente um sector do país do chamado centro direita.

Não sei o que diria Francisco Sá Carneiro perante o actual estado de coisas. Desde a tomada de poder por quem perdeu, ao desaparecimento das pessoas que deveriam falar, até ao candidato dito de Centro Direita a Belém ter como modelo Jorge Sampaio. Tudo isto está trocado. Nada é linear. Parece que entramos no reino do faz de conta.