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Expresso

As boas e as más moedas

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Vivemos num país de manias. A mania do predestinado, vem desde D. Sebastião e ciclicamente repete-se com mais um afloramento de ungidos do sistema. Elevados a salvadores da pátria, podem tudo. São a última Coca-cola no “nosso deserto”. São a esperança e a mudança há muito ansiada pelo povo.

Nomes? São todos sobejamente conhecidos. Começando logo pelo Presidente da República. Quatro maiorias absolutas no bolso. Quatro. Mas hoje ninguém publicamente e de viva voz assume que votou Cavaco. Nem sei onde andam os mais de 50% vezes quatro. Certamente um acaso do destino. Aliás, um “não político” só poderia dar nisto.

Continuando o percurso pela galeria dos homens providenciais, relembremos José Sócrates e a sua ascensão. Era a nova forma de fazer política. Era o profissional do teleponto. A esquerda moderna que iria recolocar o país na rota do crescimento. Quem era o “engenheiro” que todos, da direita à esquerda se apressaram a elevar em 2005? Isso, como diria Teresa Guilherme, agora não interessa nada. Estava ali a esperança. Era aquela a boa moeda. Apadrinhado pelo “não político” o “engenheiro” só poderia ser um bálsamo neste país sofrido. Pois. Foi o que todos sabemos.

Todavia continuámos e continuamos a reviver esta espera pelo salvador da pátria. Depois foi a degradação dos actores políticos. Os Passos Coelhos, Portas e Seguros eram maus, péssimos até. Muito erráticos e com pouca dimensão política. O que não se ouviu. O que não se escreveu. Todavia no enredo da estória, o enredo ainda tinha os bons. Prontos a saltar para a ponte do navio e comandar tudo o que desejassem, em direcção a bom porto. Quem eram? Dois autarcas a quem tudo lhes era permitido. Rui Rio e António Costa. Os salvadores do regime. Os homens que fariam deste país um país sem troika, sem os maus políticos e sem crises. Porquê? Porquê a fé? Não interessava a origem da esperança. Eles eram os predestinados, estavam ungidos. Eram forjados no material do qual se fazem os estadistas. E o que se viu depois? Pois. Um arrasou um líder quando venceu, perdeu umas eleições e anda qual náufrago à procura de um pedaço de madeira onde se possa agarrar, sob pena de se “afogar”. O outro queria tudo e parece que pode ficar a ver passar navios em Leixões. Era São Bento e Belém. Era Presidente do PSD com a derrota de Pedro Passos Coelho, mas também poderia ser Presidente da República.

Por fim, o eterno candidato a tudo. Anos a fio a dizer “das duas uma”. Popular e popularucho, aparece hoje já coroado Presidente. Será que Cristo desceu à terra e nós não reparámos? Marcelo Rebelo de Sousa é a boa moeda que virá salvar o país de Cavaco Silva. Todavia esperemos que, daqui a um ou dois anos, não haja evaporação dos votantes em Marcelo…

E quem diz nos políticos, diz nos empresários com grandes distinções e pés de barro em termos de gestão.

É assim que vamos. Em alegre distracção. Maniqueisticamente rotulando pessoas de boas e más. Como se fossem fruta boa ou tocada, que pode ficar podre. No entanto, de trocos e moedas furadas estamos fartos. Fartos de ver pedestais erguidos, para depois ruírem à primeira dificuldade. O tempo não é de super-heróis. É de pessoas normais. Normais e iguais a todos nós. Que erram e que falham. Que se levantam e sabem perceber o erro. Que são de carne e osso. Que sabem que é preciso ouvir, é preciso aprender e é preciso respeitar o próximo. Sem altivez, nem arrogância.

E por isso percebemos que Francisco, o Papa, é o único líder, no activo, que vale a pena seguir e acreditar. É um entre nós. Não é a estrela cintilante, nem a desilusão amargurada. É o que é. E hoje em dia, ser normal é ser isso mesmo, igual a todos os outros.