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Expresso

Há mais vida para além do défice?

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E eis que em plena campanha lá nos aparece, o tão tristemente familiar, défice. Como sempre, vira tema de debate e são horas a explicar, a atacar e a conjeturar.

Tem sido assim desde que António Guterres escorregava nas contas do défice. Nessa altura pouco se ligava ao assunto, até que nos deixaram de "tanga", palavra de Durão Barroso. Como o país na altura seguiu Alexandre O'Neil e o "cherne" percebemos que, essa coisa do défice, era mesmo assunto para levar a sério. Bem sei que em política a memória é curta, mas na altura, o défice estava bem apertado pelas regras comunitárias. Ironia das ironias, aos olhos de hoje, era a Ministra das Finanças a primeira a proclamar a austeridade, Manuela Ferreira Leite. A mesma economista insuspeita, que hoje, com Paulo Magalhães, na TVI24 anda sempre tão "indignada" com a dita falta de sensibilidade social do Governo.

Na altura os fura-défices foram nada mais nada menos que a Alemanha e a França. E lá se suavizou essa medida tão essencial para o sonho de um continente, uma moeda comum e um tratado. Não necessariamente por esta ordem.

Contudo depois das medidas extraordinárias para controlar o "monstro", palavra de Aníbal Cavaco Silva, chegou-nos uma contagem à medida. Na altura bem reclamou o Presidente Sampaio de que haveria mais vida além do orçamento. Mas será que há? Numa zona Euro onde os países estão sem possibilidade de mexer na taxa de câmbio, na taxa de juro que soberania resta? Pois…

Já que fazemos a resenha histórica de um défice à portuguesa, acompanhemos outra novela. Com direito a ascensão. Se não fosse trágico, até seria um bom romance à Rentes de Carvalho. Este saiu da pena do então Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, que revelou a Portugal um défice à centésima: 6,83%. Défice imputado ao Governo de Pedro Santana Lopes. Défice, ou melhor projeção de défice, sem qualquer medida ou decisão e sem sequer ter fechado o ano. Imaginemos um Real Madrid vs Barcelona. E se lhe dissesse que do lado do Barça não havia Messi, o treinador não tinha titulares disponíveis e nem estaria lá para acompanhar o jogo. Que previsão, ou melhor projeção, daria ao resultado final? 15 a 0 para Cristiano Ronaldo e seus companheiros. No mínimo. Foi esse pequeno ardil, que permitiu a José Sócrates fazer furor e projetar uma imagem de rigor nas contas públicas, e Constâncio, esse rumou a Frankfurt para o lado do Senhor Draghi.

Feliz país, esse que passeava alegremente. Embalado pelo "rigor" de Sócrates, até ao dia em que alguém chamou a troika. Dúvida existencial desta campanha. Mas o certo é que fomos até aos 11% em 2010. Extraordinário, colossal.

E sim, está aí a justificação de muita austeridade e da tal chamada que alguém fez para os senhores da troika.

Eis senão quando parecíamos ter o défice, pelo menos de 2014, bem resolvido, chega o terramoto BES. Os números e as autoridades estatísticas obrigaram a colocar no défice o empréstimo estatal ao Fundo de Resolução. Não sei se notaram na expressão anterior: empréstimo, que será reembolsado, aquando da venda do Novo Banco e colmatado o eventual diferencial, face ao preço pago pelo comprador, pelas entidades bancárias a operar em território português. Isto é complexo, é novo, experimental, é tudo o que quiserem chamar. No entanto, não são sérios, os apressados a atacar o número de 4,5% de 2014. Bem sei que estamos num período atípico, que logo se perde a noção de democracia e eleições, com expressões tão dignas como "morreu a campanha da direita". Elucidativo. Mas já agora, não caiam no desespero. Temos tanto, mas tanto que discutir em Portugal, que este não é o tema mais prioritário. E convém ser sério neste debate. É que o drama de muitas alminhas, que por aí andam, é que por muitos defeitos que este Governo tenha, e teve-os, disse não ao Dr. Ricardo Salgado e não permitiu a euforia de uma certa esquerda, que gosta de colar cartazes com caras de banqueiros e políticos, confundindo tudo e embelezando o discurso consoante a ocasião.

O drama acentua-se quando o grau de oposição em Portugal anda pela amostra que vamos observando.

Parafraseando o insuspeito Jorge Sampaio: “há mais vida para além do orçamento”.