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Expresso

Somos todos refugiados

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Não há muitas palavras para descrever aquilo que sentimos ao ver as notícias por estes dias. Aquela imagem fica inerte no nosso subconsciente. Aquela criança inocente, cadáver embalado pelas ondas, de um mar que separa dois mundos.

Este é um tema muito intrincado, mas reflexo do mundo de hoje. Duas formas de viver tão distintas. O mundo é enorme, redondo, mas parece que pequeno demais para quem quer viver em paz e em liberdade.

Estamos perante uma crise de grandes proporções humanas, éticas e civilizacionais. É mesmo uma crise humanitária. São pessoas que diabo. Não é uma praga ou maldição, nem justifica a construção de novos muros da vergonha. Não há muro que resista a este movimento.

A Europa andou aos encontrões quando, finalmente acordou para este grande movimento de refugiados. Sem liderança clara, visão e humanismo. Ponham bem a tónica no humanismo. Como sempre, mais uma vez, o líder natural deste continente, o primeiro a falar do tema, a visitar o local e a pedir respostas. Quem foi? O Papa Francisco. Foi em 2013, que o Papa Francisco visitou Lampedusa e chamou a atenção para um esquecimento consentido. Eu repito, foi em 2013. E de lá para cá? Mais um exemplo, do único líder que o sabe ser. E mais um exemplo de uma Europa burocrata, perdida e ensimesmada.

No entanto, este é um problema global. As primaveras árabes, os derrubes de ditadores, não vieram dar a Democracia plena nem a paz e a estabilidade desejadas. Criaram um caos de conflitos tribais, religiosos e étnicos, de que o Daesh ou Estado Islâmico é a mais monstruosa depuração de perfídia e maldade. É um pedaço de terra num condomínio dos infernos. Só assim se justifica a saída de milhares de pessoas da terra em que sempre viveram. Estão em desespero, fogem da morte e das atrocidades várias, que todos os dias flagelam quem lá permanece. Os testemunhos são de busca de vida, a esperança de deixar a aflição para trás e começar de novo. Estas pessoas em fuga prefeririam continuar a viver nas suas terras, mas não conseguem passar mais tempo lá. Porque lá, não há vida nem muito menos paz.

No meio desta loucura, as respostas tardias, a fraca capacidade de actuação e propostas que nem merecem qualquer consideração, como “metê-los a limpar as matas”, só demonstram o estado a que chegámos. Aqui, para espanto de algumas audiências, a Alemanha, puxada pela Chanceler Merkel, demonstra, ao se disponibilizar para acolher largas centenas de milhares de refugiados, aos egoístas europeus o que é preocupar-se com seres humanos com graves dificuldades. Mesmo o Governo português, de um país com parcos recursos, mostrou, desde a primeira hora, uma disponibilidade para ajudar que faltou a vários parceiros europeus com bolsos mais abonados.

A pessoa humana é o referencial de qualquer sociedade, de qualquer economia. São as pessoas que fazem o mundo, que fazem os mercados, que dão corpo à globalização. São as pessoas que vão comprar e vender acções, que vão consumir, que vão adquirir, que vão empregar e trabalhar. Sem pessoas, por mais que as teorias brilhem em manuais de inegável valor, por mais que as contas nas folhas de Excel batam certo, não há economia que resista.

Portugal deve dar o exemplo. Saber receber sempre foi uma forma de estar do povo português. Desde os retornados, em 1974-75 foram acolhidos, em Portugal, cerca de 600 mil refugiados vindos das antigas colónias, passando pelos brasileiros, até ao fluxo das pessoas de leste. Todos foram sendo integrados. Que se receba cada pessoa com a dignidade que lhe é devida, sem dedo apontado para a mata ou para o campo. Cada pessoa tem a identidade, a sua formação, as suas peculiaridades. Já vivemos demasiados anos na indiferença a estas pessoas que muito precisam do nosso auxílio.