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Expresso

Ser Pai

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Entre fraldas, sonos e choro, sentei-me uns minutos a “saber do mundo”. Após a maior bênção que um ser humano pode ter, ser pai, pouco resta de atenção para dar à envolvente externa.

Dizia Steven Spielberg que “O meu primeiro filho nasceu em 1985 e alterou-se todo o meu paradigma. A partir desse momento, tudo tem que ver com o bem-estar dos meus filhos. Subitamente, a minha carreira passou para segundo plano.” Bem, é o Spielberg a dizer. E desde que foi pai recebeu dois óscares como melhor realizador e um óscar para melhor filme, tendo ainda feito um número considerável de filmes de grande impacto.

É extraordinário como na vida precisamos de passar por determinados momentos para percebermos realmente a dimensão de cada coisa.

Voltei à TV. Durante uns minutos, pois o tempo é contado e quase de olho meio fechado, lá ouvi a ladainha do costume. Agora até parece uma cassete perdida de 2005, que continua em play. Onde é que já ouvi falar de milhares de empregos em vésperas de eleições?

E continuamos a discutir o plafonamento. Andar a discutir o plafonamento, é olhar para a minha filha e dizer presente, acaba de nascer mais uma futura contribuinte, talvez muito contribuinte e pouco pensionista... Coitada da miúda, vai nascer com uma bela dívida às costas. Já dizia o Tiago Bettencourt, e tão bela que é a música:

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei

É de uma beleza e de uma actualidade aflitiva. É este o problema de décadas. Olhar em frente, ou melhor, olhar para o presente, acautelar resultados, sobretudo eleitorais, sem olhar ao futuro e aos resultados de um país. Esta falta de solidariedade entre gerações mete o conceito de intergeracionalidade meramente no plano das hipóteses. Quem vier atrás que feche a porta. E já vi tudo. A minha filha e outros tantos que nasceram e irão nascer vão pagá-la. Com factura e sem sorteio do automóvel.

No meio lá consegui sorrir. O número da natalidade em Portugal aumentou até Julho. A minha filha ainda não entrou nestas contas. Nestas. Mas é um bom sinal. Um sinal de esperança e de confiança. Não há futuro apenas para os que estão por cá hoje neste cantinho à beira mar plantado.

E assim volto ao Spielberg e a esta bênção que é ser Pai, que nos dá força para olhar para o futuro com esperança. E que força esta. Apesar de algumas dificuldades. Do choro, das noites sem dormir, da preocupação constante, do trabalho permanente, da angústia de falhar, da falta de jeito. Um filho é levar-nos para outra dimensão, outro patamar, é outra a exigência que sobre nós impende. É saber que tudo faremos, tudo iremos ultrapassar para cuidar daquele pedaço de pessoa. É um amor incondicional. É o novo centro do universo e traz consigo a ambição de lhe dar o que for preciso para crescer com a saúde e a força tão necessárias para encarar este mundo difícil em que temos de todos dias lutar, cada um à sua maneira.

E já agora, olhem também todos para os vossos filhos. Não podemos hipotecar o futuro deles. Não precisamos de mais delírios despesistas, de mais construções sem nexo, de mais swaps à medida, de mais PPPs ardilosas. Cuidemos do futuro. Os nossos filhos, bem como todos nós humanos, merecem um futuro melhor.