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Expresso

Produtividade versus férias

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Li na semana pretérita que Portugal é dos países europeus em que menos férias e feriados se gozam. Atrás de nós só Irlanda e Bélgica que disponibilizam 20 dias úteis aos seus trabalhadores.

Depois olhamos para os indicadores de produtividade e onde andamos nós? Bom. Pior só comparando as horas de trabalho da Alemanha e Portugal, percebemos que um alemão rende mais 30% que um português, em Portugal, é bom sublinhar.

Convém, para não cairmos na mistura de alhos com bugalhos, lembrar que a intensidade tecnológica dos bens produzidos na Alemanha e Portugal é assaz díspar, basta lembrar que cerca de 62% da produção industrial nacional é de baixa e média-baixa tecnologia. Este facto tem reflexo no preço e, por consequência, na medição de produtividade, são precisos muitos sapatos, mesmo que sejam de gama alta, para obter o preço de um BMW…

Todavia, numa altura em que muitos portugueses estão ou vão de férias, é bom relembrar que a produtividade e as férias estão correlacionados. Já aqui o escrevi que a vida não é só trabalho. A cada dia que passa, penso que todos sentimos o mesmo. Por isso é importante começar a tomar medidas que não nos deixem mais desmotivados logo menos produtivos.

Em Portugal tomou-se a medida de acabar com quatro feriados. Simbólica ou pouco ponderada dirão alguns. E resultados? Quantos pontos percentuais subiu o PIB por conta de mais quatro dias de labor? Respiremos profundamente. Já dizia o célebre jingle “Férias são férias aqui ou no Japão”...

Ninguém rende estando continuamente a trabalhar. Sim, sim, até aqueles que se consideram workaholics, deveriam pensar um pouco mais no que perdem. Não digo que o seja um empresário que quer o seu negócio a florescer e que está naturalmente preocupado. Patrão fora, dia santo na loja, diz a sabedoria popular, mas é importante reflectir que não andamos cá apenas para produzir. A velha dicotomia entre trabalhar para viver ou viver para trabalhar. A economia precisa de pessoas a produzir, melhor será se devidamente descansadas e motivadas. As pessoas são centrais quer no processo produtivo, criativo ou como consumidores. A felicidade de cada ser humano, deve ser o fim para o qual o sistema económico funciona, a economia é um instrumento, não um fim em si mesmo. De que serve cortar férias e feriados se isso não leva a que as pessoas rendam mais? É que os números são claros. Não são horas sem fim no escritório, não são feriados a trabalhar que nos vão dar um resultado positivo. São a satisfação e a motivação de cada trabalhador que nos podem dar melhores resultados, maior empenho e até mais inovação, que é a chave para aumentarmos a intensidade tecnológica, que nos trará mais rendimentos para empresas e trabalhadores.

Somos sempre mais produtivos com os incentivos devidos. E os incentivos podem nem ser financeiros. Basta a motivação de um elogio ou de uma folga.

Juntar estes indicadores todos é perceber o óbvio. Que muitos dizem, mas que de relatórios e conclusões estamos fartos. Em Portugal, existe um claro problema de produtividade, não são os portugueses que são preguiçosos, pois muitos dos que vencem por essa Diáspora fora são exemplos de profissionalismo em economias exigentes. O problema está a montante. O problema também está identificado: gestão, planeamento e investimento, nomeadamente em sectores de maior carga tecnológica. Podem tirar-nos as férias e os feriados, não será por isso que o PIB irá crescer e a economia florescer. Não é com repressão que se estimula a produção. Organização. Palavra-chave. Sim, temos mesmo que voltar aos princípios da gestão. A bem da nossa produtividade.