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Expresso

Europa à deriva

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Grécia, Grécia e mais Grécia. Podemos andar a pregar sobre outros temas, mas o drama helénico não sai das televisões e da ordem do dia. O que se passa lá, tem impacto cá.

Sim, somos europeus. Todos. Solidários, a lutar por um espaço comunitário que vive em paz e que quer ser um grande espaço de movimento de pessoas, capitais e bens.

Esta situação de caos, com levantamentos racionados pelos controlos de capitais, é prejudicial a todos e descredibiliza a moeda única. Bem podem tentar vender-nos a ilusão de que o que se passa na Grécia fica na Grécia. Todavia, com a forte interligação das economias na economia global, com a dívida grega a estar hoje na mão dos diferentes países europeus e, via FMI, nas mãos de muitos mais e não nos privados, isto significa que estamos todos expostos.

Não vale a pena negar o óbvio Esta situação, o novo resgate e de novas discussões para restruturar a dívida ou perdoar, tem um impacto tremendo. E não é já apenas conversa. Lagarde e agora Draghi admitem tal hipótese.

Os europeus olham para tudo isto e começam a colocar as trancas à porta. No Norte da Europa assiste-se à subida das franjas políticas à direita, no Sul, na Grécia como em Espanha, cresce a esquerda radical. O sentimento de fechar fronteiras, desligando-se dos problemas comuns é uma enorme tentação. E aí começa a desmoronar o sonho europeu.

Os últimos acontecimentos têm também o condão de arrasar ideologias. A esquerda, sobretudo a social-democracia juntamente com a democracia cristã fundadora do projecto europeu, está hoje partida, desorientada e órfã. Foi de esperança em esperança, até à desilusão final. Foi o sonho Hollande desfeito rapidamente, foi o sonho Renzi, amarrado à Europa e agora tem em Tsipras a abdicação final ao assinar documentos com os olhos nos bolsos e a mão no coração. Bem sei que as entrevistas se sucedem, com vários comentadores, a dizerem que não concordam com o plano traçado. Ora, esta situação, bem como a forma como o Syriza votou o acordo, aprovo mas discordo absolutamente do que aprovei, cria condições para a fermentação de um novo ciclo de instabilidade, que tarde ou cedo se manifestará.

Como pode alguém assinar algo de que discorda radicalmente? E pior como pode alguém seguir à risca o que assinou se não acredita no caminho? É muito complexo. E por isso está esta Europa perplexa e com falta de rumo.

Esqueçam os manuais e as teorias. O caos, porque o Grexit ainda se discute nas chancelarias do Norte da Europa, porque perante tão restritivo e dificílimos programa e metas a cumprir pela Grécia, poderá, infelizmente para todos nós europeus, regressar a breve trecho. O génio, saída da Zona Euro, não foi definitivamente colocado dentro da lâmpada. E ninguém tem um guião completo e testado para esta situação.

Estamos, de facto, todos no mesmo barco. Já escrevia Camões:

No mar tanta tormenta e tanto dano,
tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
onde terá segura a curta vida,
que não se arme e se indigne o Céu sereno
contra um bicho da terra tão pequeno?