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Expresso

&conomia à 2ª

A Europa é mesmo um conto de crianças

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Isto é tudo tão surreal que só podemos achar que estão todos a brincar, antes de irem de férias.

O sonho europeu é isso mesmo: um sonho. Cada vez mais pesadelo e cada vez mais fantasmagórico.

Demorámos anos na construção de uma União Europeia. Na idealização dos fundamentos democráticos e na articulação de diferentes países, com diferentes culturas, mas com a promessa de um futuro partilhado. O projecto era claro: todos de mãos dadas. Falhou “apenas” uma questão, cada país tem o seu próprio andamento e as mãos por mais que estiquem não conseguem puxar todos ao mesmo tempo.

Chegámos a um possível ponto de ruptura. Era expectável. Mas, se formos sérios, percebemos que isto é culpa de todos, sacudindo todos a assumpção da sua quota-parte de responsabilidade.

Andamos nesta conversa vai para anos, subindo novamente de intensidade nos últimos meses. Neste jogo do empurra nas reuniões do Eurogrupo, percebemos que na Grécia a vontade de sentar e fechar o acordo, sem assegurar a defesa das suas linhas vermelhas, é pouca e que nas Instituições Europeias (bem como nos Estados-membro do euro) a vontade de fechar, fazendo algumas cedências, também. Alguém imagina o eixo franco-alemão de Helmut Kohl e François Mitterrand, com Delors à frente da Comissão Europeia, a deixar que uma reunião terminasse sem decisões? Alguém imagina que Adenauer, Monnet, Schuman e De Gasperi, para referir alguns dos fundadores (democratas-cristãos e sociais democratas) deste projecto, a brincar às reuniões e aos memorandos?

Perdemos tempo demais em rodriguinhos. A Grécia tem um problema claro, não tem dinheiro, para cumprir com o serviço da dívida contraída. Isto é um problema e obriga a encontrar soluções, preferencialmente cooperativas e não confrontacionais. A Europa tem outro problema, se este cenário voltar a produzir contágio nos países ditos periféricos, não é fácil acudir a todos de igual forma.

Por mais voltas que se dê, percebe-se que estes são dois problemas bem identificados.

Agora, quem quer ceder, quem quer cortar o braço? São momentos destes que obrigam ao aparecimento de verdadeiros Estadistas. Que identifiquem o problema e que saibam estar à altura do momento. E a propósito deste momento, espero bem que a notícia do Financial Times, sobre a postura de Portugal esteja errada. Não gosto de ver o meu país armado em ”bom aluno” moralista e contra o sofrimento do povo grego. É que o povo grego sofre, como podemos ver pelas imagens que nos chegam e ao mesmo tempo, debaixo de condições económicas difíceis, e tem de acolher um número cada vez maior de refugiados, que buscam a Europa para fugir à guerra e à barbárie. Este é um país que tem de se reinventar, mas que ao mesmo tempo vê as suas alternativas a estreitarem-se. Dir-me-ão que eles têm culpa por ter elegido o Syriza. Certíssimo, mas face a tudo o que se passou após o primeiro resgate, à queda de 25% do PIB, o desemprego de 30%, o aumento significativo da pobreza, todavia será assim tão improvável que o povo grego, perdendo a esperança debaixo das condições duras impostas pelo desarranjo económico, elegesse um partido que prometeu lutar para reverter o que foi feito? Mas entre a passagem de culpas de um lado para o outro, temos um país sem futuro, sem dinheiro e cada vez mais sem dignidade.

A tónica da resolução deste imbróglio está na capacidade de percepção. Os Gregos são livres de convocar um referendo, feito de baixo de circunstâncias difíceis, quando há um mês o Ministro alemão das Finanças o propôs teria sido feito com melhores condições debaixo de menor pressão. Todavia a democracia ainda é o regime que funciona nesta Europa e deve sempre ser respeitada, pelo que Angela Merkel tem o direito de responder, da forma que respondeu, pedindo que se aguarde pelo voto grego. É a Europa na sua diversidade.

Porém no meio desta tormenta quem pensa o futuro Europa? Que Europa queremos deixar? Urge pensar para lá desta actuação reactiva e trabalhar pensando nas novas bases para o futuro sustentável desta União. Nesta fase, deveríamos estar a falar de crescimento económico, de fomento à inovação, de investimento com o Plano Juncker, da forma como vamos gastar os fundos europeus da Europa 2020. Deveríamos estar a projectar o futuro. Mas não, continuamos a marcar passo sem perspectivas de futuro, nem uma liderança efectiva, a ver os países emergentes a subir e cada vez mais a ombrear com a Europa.