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Expresso

Portugal não é só Lisboa

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Existe uma certa elite política que apenas vive no ecossistema lisboeta. Vá, Lisboa e alguns arredores. Vivem nesta ideia de que o país se conquista entre um post no facebook ou uma notícia num qualquer jornal diário. Que bastam almoços e jantares com jornalistas e empresários do meio. Que tudo o que um político diz será escutado com a devida atenção pelo povo. Escutado, apreendido e seguido.

O mundo talvez já tenha sido assim. Já foi, mas agora definitivamente não é. Nem os meios formais e habituais têm o poder que já tiveram, nem as pessoas querem saber do que dizem os políticos, esses que consideram todos iguais. É a realidade, nua e crua.

O País não é apenas o eixo que vai do Terreiro do Paço à Quinta da Marinha. Não é apenas por olharmos em volta e pararmos para atravessar a estrada e sermos invadidos por tuk-tuk que isto é sublime, está forte e que tudo corre maravilhosamente bem.

O país não se limita a um peixinho no Guincho ou uns mergulhos no deserto, perdão, na Costa da Caparica.

E o país está aí de costas voltadas para os senhores da bolha de Lisboa. Está aí com as suas dificuldades naturais, mas com heróis locais.

São empresários e trabalhadores que fazem o país andar para a frente. Sim sim, para a frente, como exulta a coligação PSD-CDS. Este país com um vasto território não se pode fazer apenas de turismo ou de serviços. Temos o mar, sempre o mar, a eterna promessa, o palco do passado glorioso. Aquele que foi navegado por nós antes dos europeus do Norte, e no qual devemos apostar em força. Em termos económicos e de recursos. É lá que potencialmente, estão muitos recursos.

Mas também temos o território. A nossa fauna. A nossa floresta e a nossa terra. A lavoura tão querida anteriormente. E esta terra é fértil. Graças a Deus que é. Temos 92 090 km² de dimensão. Muita terra para aproveitar. O peso da agricultura desceu. Em 1995 significava 5,4% do PIB, em 2014 ficou nos 2,3%. Se olharmos para o peso no emprego, percebemos que também aqui desceu. Em 2000 representava cerca de 12,7%, hoje em dia ronda os 8,6%. E recordar que em 1950, a agricultura empregava 47% da população activa.

E como anda a nossa floresta? Bem, esta representa cerca de 1/3 do nosso território. Tem gerado emprego e é base de exportações, de crescimento de actividades de lazer, tendo uma forte componente de preservação do solo e regulação da água e do ciclo hídrico. Na nossa floresta o que mais temos são eucaliptos (que não podem virar monocultura), pinheiros bravos e sobreiros. Sendo hoje, mais uma fonte de exportação ao nível da cortiça, do fabrico mobiliário de madeira ou da silvicultura e exploração florestal.

Temos este património riquíssimo e só podemos olhar para ele como desígnio. Também aqui o combate aos incêndios, com importante papel a desempenhar pelas autoridades públicas, é essencial. Destrói uma fonte de rendimento e devasta o nosso território. Só com mais planeamento florestal e prevenção se podem evitar os flagelos graves que vemos repetido nos verões quentes e de baixa humidade. Não chega ter aviões, helicópteros, carros de combate e bombeiros corajosos, temos de reduzir a probabilidade e a intensidade dos potenciais focos de incêndio.

São dados que lanço para uma maior consciência das nossas potencialidades, em tempos onde o que mais destaque tem são os defeitos e os vícios, que também evidentemente os há, do nosso país. Num tempo em que parece que os países se resumem à sua economia, que se esgotam nos mercados, derivados e créditos, o regresso à terra, o chamamento do sentimento telúrico tão bem descrito nos poema de Miguel Torga, com o uso de tecnologia de ponta, com inovação e conhecimento aplicado podem fazer a diferença.

A frase de Eça de Queiroz n’ Os Maias “O País está todo entre a Arcada e São Bento” está ultrapassada. Portugal é mar e terra. E esta terra não está cá para fazer fronteira com Espanha. Está cá para ser aproveitada e trabalhada.

Bem sei que citar hoje Cavaco Silva é logo alvo de fortes críticas, mas o Presidente não deu um mau conselho quando, há um ano, desafiava os jovens a tentarem a agricultura como alternativa à emigração. É também pela agricultura moderna e sobretudo de nicho, não a de antanho, que podemos colocar o país a crescer.