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Expresso

&conomia à 6ª

Trabalhos para casa e desigualdade social

Aurora Teixeira

O infindável debate sobre os trabalhos para casa escolares, vulgo TPC, foi reavivado com a publicação, no início do presente mês, de um relatório da OCDE intitulado "Does homework perpetuate inequities in Education?" ("Os trabalhos para casa perpetuam as desigualdades na educação?"), associado aos resultados dos testes de PISA de 2012.

Aparentemente, ninguém, direta ou indiretamente envolvido nos TPC, parece gostar da actividade. Em geral, os alunos detestam a dita cuja pelas razões óbvias (menos tempo para outras actividades extracurriculares, nomeadamente navegar na internet/jogar ou ver TV). Os pais/encarregados de educação (EdE) não os apreciam grandemente por uma série de outras razões: 1) fazem os seus filhos (mais) infelizes; 2) não raras vezes, constituem acréscimo de trabalhos para os progenitores, implicando, na melhor das hipóteses, a monitorização atenta da atividade ou, nos casos mais extremos, a realização da mesma (quando já não há paciência para ensinar, o 'faça você mesmo' é mais rápido, ou quando se quer, 'à viva força', que a criança/adolescente tenha desempenhos escolares excelentes, ainda que lhes falte a capacidade e/ou empenho para tal). Finalmente, os professores também não parecem 'morrer de amores' pelos TPC (não obstante se sintam no dever de os marcar), pois a respectiva correcção implica uma carga de trabalho não negligenciável - corrigir TPC constitui, frequentemente, um interminável 'trabalho para casa' dos professores de 'fazer inveja' a Sísifo,(1) o 'herói do absurdo', nas palavras do filósofo existencialista francês Albert Camus.

Do supra citado relatório da OCDE parece emergir mais um grande inconveniente dos TPC: contribuem para o aumento das desigualdades socioeconómicas nos resultados dos alunos...

Dados recolhidos pela organização demonstram que, para os 38 países em análise, os alunos oriundos de meios socioeconómicos mais favorecidos, comparativamente aos seus colegas provenientes de meios mais desfavorecidos, dedicam, em média, mais 1,6 horas por semana a estas actividades (2h, no caso português), obtendo daí melhores desempenhos escolares, sobretudo na matemática.

Esta ideia/constatação que os TPC 'beneficiam' de forma distinta os alunos oriundos de diferentes contextos socioeconómicas não é nova (já há muito tempo que diversos estudos na área da Economia da Educação (2) têm demonstrado esta evidência). Em concreto, é referido que os alunos oriundos de meios menos favorecidos não têm, muitas vezes, condições adequadas em casa (espaço calmo e tranquilo) para um estudo eficaz e/ou não recebem dos seus EdE apoio nesta tarefa, quer por manifesta falta de tempo, quer por falta de capacidade (baixos níveis de escolaridade e/ou habilitação dos EdE).

É curioso recordar que, em 2012, uma das 'bandeiras' eleitoralistas do atual Presidente francês, François Hollande, sob argumento de "diminuir as desigualdades", era o de acabar com os TPC! Eis um homem à frente do seu tempo... Hollande propôs, nessa altura, banir os TPC como parte de uma série de políticas destinadas a reformar o sistema educacional francês.

Mas, se há evidência (ainda que alguns refiram que é ténue) de que o TPC (em quantidade e qualidade adequada, como é óbvio) é benéfico para o desempenho escolar dos alunos, não parece muito lógico pura e simplesmente os banir porque a sua existência é socialmente 'injusta'. Levando esta argumentação ao extremo, como os mais desfavorecidos não têm acesso (tão frequente) a viagens, concertos/cinema, desporto, ... a 'solução' seria acabar com estas actividades e, assim, caminharmos para uma sociedade mais 'justa'.

Para além do absurdo (na minha ótica) deste tipo de argumentação, é essencial sublinhar a importância dos TPC, desde que estes sejam relevantes e relacionados com os objectivos de aprendizagem e sejam projetados para aprofundar a compreensão dos alunos e para o facilitar o domínio do material a ser aprendido. Entre outras vantagens, os TPC promovem bons hábitos de estudo, ajudam a consolidar e esclarecer o que foi aprendido durante o horário escolar, permitem a prática com conteúdo, de conceitos e competências, melhoram o desempenho dos alunos nos testes de avaliação, reduzem o (frequentemente excessivo) tempo despendido a ver televisão e jogar computador, e, muito importante, incutem e ensinam a autodisciplina, a responsabilização e a gestão/organização de tempo.

No sentido de evitar que o sistema de ensino perpetue e agrave as desigualdades sociais, o que é fundamental não é acabar com os TPC mas antes que se garanta aos alunos de meios mais desfavorecidos as condições adequadas para que os TPC tenham neles os mesmos efeitos que nos seus colegas de contextos mais favorecidos.

Poder-se-ia, como de resto propõe a OCDE, implementar medidas, ao nível da escola, para proporcionar o apoio a estes alunos por parte dos docentes e em horário extra-escolar. Admitindo plena eficiência na utilização dos recursos por parte das escolas, tal apoio exigiria naturalmente mais recursos humanos e materiais, logo mais dinheiro público (o que se traduziria, na ausência de re-afectação de recursos entre ministérios, em mais impostos).

Uma alternativa que, no meu entender, é exequível e socialmente muito relevante é a de, ao nível local, as autarquias estimularem e organizarem a emergência de acções colectivas envolvendo, num regime voluntariado, alunos mais velhos, com bons desempenhos escolares, que dedicariam 2-4 horas do seu tempo livre semanal no apoio a alunos mais novos oriundos de contextos desfavorecidos (independentemente do seu desempenho escolar). As autarquias 'apenas' teriam que providenciar um espaço 'calmo e tranquilo' para o desenrolar destas actividades e organizar esta rede de 'tutores' de excelência que seriam anualmente reconhecidos em cerimónia pública local pelo seu trabalho comunitário. Este trabalho teria a dupla vantagem de fornecer a estes bons alunos uma importante experiência de vida e de aprendizagem (ensinando aprende-se muito).

O que para muitos poderá parecer pura demagogia, para mim trata-se apenas de uma acção concreta e exequível de responsabilidade social e solidariedade.

Notas:

(1) Sísifo é um herói da mitologia grega que foi condenado pelos deuses à realização de um trabalho sem sentido: por toda a eternidade deveria empurrar uma grande pedra redonda até o cume de uma montanha, a qual, por força da gravidade, rolaria ladeira abaixo implicando por parte de Sísifo a repetição incessante da mesma tarefa.

(2) Ver, por exemplo, Rønning, M. (2011), "Who benefits from homework assignments?", Economics of Education Review, 30 (1), pp. 55-64.