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Expresso

&conomia à 6ª

O poder das pipocas

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As pipocas são o barulho que subsidiam as salas de cinemas. Um mal necessário para uns, uma iguaria para outros. 

Estamos na Páscoa e há cinemas com horários alargados e com menus que nos fazem sentir numa cadeia de "fast-food". Por um preço único adquire-se o bilhete, um refrigerante e pipocas.

As pipocas nos cinemas irritam uns e fazem as delícias de outros. Uma dualidade que contrasta com uma certeza: as pipocas, assim como refrigerantes e outros "snacks" são, em muitos casos, a injeção financeira que permite a viabilidade económica do cinema.

Nos Estados Unidos, a venda ambulante de pipocas começou nos finais do século XIX em eventos desportivos, circos e feiras, mas não nos cinemas que atraíam elites. O cinema era mudo e as legendas requeriam uma audiência letrada. Em 1927, o som abre portas a milhares de espetadores e os vendedores de pipocas fixam-se nas redondezas, explorando uma nova fonte de lucro. A pipoca era barata e popular, mas era ainda odiada pelos proprietários dos cinemas e proibido o seu consumo no interior. Mas cedo o ódio deu lugar a uma história de amor, impulsionada pela grande depressão e pela crise financeira que afetou os cinemas. A venda de pipocas passa para dentro dos cinemas e poucos proibiram o seu consumo; apenas os que queriam manter uma tradição de qualidade e elitista. No entanto, estes apresentaram prejuízos que contrastavam com os lucros dos que exploravam as concessões. Na altura da 2ª Guerra Mundial, a tradição estendeu-se à Europa.

Mas as pipocas não vieram só salvar os cinemas de uma morte anunciada, alteraram os filmes exibidos e os horários destes. Introduziram-se as matinées infantis e deu-se prioridade aos grandes dramas, filmes de ação e suspense. Ou seja, o que mais pipoca vende.

Hoje em dia, as pipocas já não são o "snack" barato de outrora, sendo o seu preço cerca de 20 vezes superior ao seu custo. E não existe incentivo para a sua redução, muito pelo contrário. Os cinemas pouco lucro fazem com a exibição dos filmes. As receitas de bilheteira vão na sua maioria para os estúdios e distribuidoras, numa percentagem que chega a atingir os 90% na semana de estreia. O incentivo dos cinemas é então reduzir os preços dos bilhetes aumentando o preço de comida e bebidas, produtos cujas margens de lucro controlam na totalidade. Mais, os espetadores são mais reativos ao preço dos bilhetes, à qualidade e localização dos cinemas. E uma vez no interior de um cinema, é difícil resistir ao cheiro, ao pedido das crianças e a uma experiência cultural sem uma experiência degustativa e barulhenta.