Siga-nos

Perfil

Expresso

&conomia à 6ª

"O PIB mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena"

  • 333

 

Esta terça-feira, na conferência na Ordem dos Economistas, Subir Lall, o chefe da missão do FMI, destacou o sucesso do programa de ajustamento estabelecido no Memorando que o Estado português assinou com a troika: o défice externo desceu e o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu, apesar de estar ainda a níveis de 2002. Ou seja, como concluíram vários órgãos de comunicação social e economistas, os portugueses estão hoje tão pobres (ou tão ricos) quanto há 13 anos atrás. O PIB, sempre ele, voltou a estar na ordem do dia. 

Mas o discurso de Subir Lall fez-me recordar e celebrar os 47 anos do famoso discurso de Robert Kennedy a 18 Março de 1968 (tradução livre):

"O PIB considera nos seus cálculos a poluição do ar, a publicidade ao tabaco e as ambulâncias que circulam para socorrer os feridos nas auto-estradas. Contabiliza as fechaduras que instalamos em nossas casas e as prisões para onde mandamos quem as consegue quebrar. Regista a destruição das florestas de sequóias e a substituição por uma urbanização descontrolada e caótica. Inclui a produção de napalm, armas nucleares e de veículos armados usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. Regista as armas brancas e de fogo, e os programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos às crianças. Por outro lado, o PIB não considera a saúde dos nossos filhos, a qualidade da sua educação ou a alegria das suas brincadeiras. Não mede a beleza da nossa poesia e a solidez dos matrimónios. Não se preocupa em avaliar a qualidade dos debates políticos e a integridade dos nossos representantes. Não considera a nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre nossa compaixão e dedicação ao nosso país. Em suma, o PIB mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena."

O que mede e não mede o PIB?

O PIB mede o valor, a preços de mercado, de todos os bens e serviços produzidos pelo sector privado e público, num país e num determinado intervalo de tempo. No cálculo, descontam-se os consumos intermédios. O PIB é uma medida do produto final da economia e não uma medida do produto total. Isto é, grande parte da estrutura de produção não é considerada no cálculo. Em caso de uma recessão, esta pode ser substimada se os sectores intermediários forem mais afetados do que os sectores de consumo final.

Mais, o PIB não distingue as atividades que geram crescimento das que destroem capital. Não inclui o valor do trabalho não remunerado, como o trabalho doméstico, cuidados a crianças e idosos, trabalho voluntário e serviço comunitário. Não considera as desigualdades na distribuição de rendimento, nem alterações na qualidade de vida, como os níveis de poluição, tempo de lazer, acesso a melhores cuidados de saúde e o aumento da esperança média de vida.

O PIB não mede bem-estar

Considerem-se, por exemplo, as hortas urbanas e as campanhas de saúde preventivas. A produção para o auto-consumo durante a crise certamente contribuiu para o bem-estar de muitas famílias, sobretudo afetadas pelo desemprego, mas, quando acompanhada da diminuição da compra de bens no mercado formal, esta produção teve um impacto negativo no PIB, no sentido em que não contribuiu para ele. Quanto às campanhas de saúde preventiva, estas podem ter um efeito positivo na saúde das populações, mas um impacto negativo no PIB se levarem à diminuição do uso (e venda) de medicamentos.

O que faz a vida valer a pena senão a felicidade?

Hoje celebra-se o dia internacional da felicidade. A criação deste dia, aprovada por unanimidade pelos 193 estados-membros da ONU, surgiu em 2012 por sugestão do Butão, um pequeno reino Budista nos Himalaias, que substituiu o uso do PIB pelo Indicador de Felicidade Nacional Bruta.

Nestes últimos anos tem-se debatido as falhas no PIB e a inexistência de uma correlação forte entre este indicador e medidas de felicidade. A OCDE e a União Europeia têm trabalhado no desenvolvimento de indicadores que medem vários aspetos sociais, económicos e ecológicos. Existe hoje uma panóplia de indicadores, mais ou menos específicos, tais como o índice de desenvolvimento humano, o índice de progresso social, o índice de bem-estar do INE. É também de considerar o inquérito aos usos do tempo, que contabiliza o trabalho não remunerado e os índices de felicidade, que embora subjetivos, tentam medir o que no limite, supostamente, andamos todos à procura.

Mas estes indicadores, cujo cálculo é esporádico e subjetivo, não têm um lugar de destaque na orientação de políticas públicas que favorecem a qualidade de vida, o desenvolvimento social, a igualdade de oportunidades, e em último caso, a felicidade. Em geral, somos informados sobre os valor destes indicadores pelos media, mas é raro ouvirmos os nossos políticos a estabelecerem metas para os mesmos. O PIB continua a ser a medida contabilística a dominar todas as atenções e isso, no fundo, equivale a viver na boa-fé que é da riqueza que brota o desenvolvimento, o progresso e a felicidade.