Siga-nos

Perfil

Expresso

&conomia à 6ª

'Nem nem' e 'nem nem nem': desculpas para quê?

Aurora Teixeira

Os chamados nem nem (em inglês, NEET - neither in employment, education nor training) são jovens (15-24 anos) que nem estudam nem trabalham.

Segundo os dados publicado num relatório recente da OCDE (Education at a Glance 2014), Portugal tem das taxas mais elevadas de 'nem nem': 15% dos jovens com idades entre os 15 e os 24 anos não estudam nem trabalham. Os países mais problemáticos, entre os membros da OCDE, são a Grécia (27%), Turquia (27%), Itália (21%) e México (21%). Em contraste, países como a Holanda, Dinamarca, Suíça e Áustria apresentam taxas de 'nem nem' relativamente baixas (inferiores a 7%).

Entre os casos mais problemáticos convém notar duas realidades bastante distintas: 1) os países em que os 'nem nem' estão desempregados, isto é, nem estudam nem trabalham, mas procuram ativamente emprego; 2) os países em que os 'nem nem' são maioritariamente inativos, isto é, nem estudam, nem trabalham, nem procuram emprego (designados, por isso, 'nem nem nem').

Bombas-relógio

No México, na Turquia e na Grécia, uma elevada percentagem dos jovens 'nem nem' (acima dos 80%, no caso dos dois primeiros países) são inativos, ou seja, não efetuam qualquer esforço para encontrar um posto de trabalho. Este contingente jovem é considerado por muitos uma verdadeira 'bomba-relógio', em termos sociais, de potencial criminalidade e de violência. Em muitos casos os factores negativos auto reforçam-se: não estudam, não trabalham, não procuram emprego, não têm família/ têm famílias desestruturadas, não têm projeto de vida... A linha que separa a 'normalidade/legalidade' do (ab)uso de drogas e crime organizado é, nos 'nem nem nem', muito ténue.

Não obstante a situação portuguesa ser preocupante (o desemprego jovem é muito elevado), é de relevar e enaltecer que os 'nem nem' portugueses são, regra geral, jovens ativos, que lutam para conseguir a sua oportunidade de emprego num mercado de trabalho cada vez mais exíguo, exigente e pouco compensador, quer em termos de rendimentos, quer em termos de qualidade dos postos de trabalho disponibilizados. Efetivamente, quase 70% dos 'nem nem' portugueses não tendo emprego procuram-no ativamente (i.e., estão desempregados mas não inativos).

Louvar o esforço, contudo, não chega. É preciso termos consciência que os 'nem nem' rapidamente se podem tornar 'nem nem nem', caso a retoma económica seja lenta e as oportunidades de permanência na escola e/ou obtenção de emprego escasseiem ainda mais.

O Estado e os 'nem nem'

Quem cria emprego são sobretudo (e espera-se que sejam cada vez mais) as Empresas e não o Governo. Este, no entanto, tem um importante papel na gestão e combate ao problema dos 'nem nem'.

É da responsabilidade do Governo a oferta (pelo menos ao nível do ensino obrigatório) de uma educação pública, exigente e de qualidade que obste o abandono escolar precoce e proporcione trajectórias alternativas de aprendizagem, designadamente profissionalizantes que procurem integrar e familiarizar os estudantes, cada vez mais cedo, com a vivência empresarial através de estágios de curta duração (durante o período letivo ou sob a forma de estágios de 'verão').

Tal oferta de recursos humanos solidamente habilitados contribuiria, certamente, para uma melhoria nas qualificações médias da mão-de-obra ao dispor das empresas localizadas em Portugal, potenciando incrementos na respetiva produtividade e competitividade, permitindo, por esta via, oferta de melhor salários. Adicionalmente, a disponibilidade de um contingente de indivíduos com habilitações formais e profissionais consistentes abriria portas para a formação de uma classe de empreendedores que, se coadjuvada por um ambiente institucional e financeiro propício - isto é, sistemas legais céleres e eficientes e bancos sólidos, capazes de constituírem fontes viáveis de financiamento para projectos de valor acrescentado - poderia constituir o motor de crescimento e rejuvenescimento do tecido empresarial português e, por consequência, de crescimento e desenvolvimento da economia nacional.

Erros, transtornos e desculpas...

Os dramáticos e incompreensíveis episódios que esta semana vivenciamos no que respeita a erros crassos, confrangedoras manifestações de incompetência em serviços públicos essenciais - educação (erros na fórmula de cálculo das colocações do professores!) e justiça ('transtornos' associados à nova plataforma informática) -, bem como a instabilidade do sistema bancário, com a saída extemporânea de Vitor Bento do 'velho' Novo Banco, constituem verdadeiros obstáculos ao nosso desenvolvimento.

Como poderemos resolver/combater o fenómeno 'nem nem' quando a educação e justiça continuam com as mesmas ineficiências de sempre?... quando não há meio de colocar o sistema bancário ao serviço das empresas, sobretudo, das PMEs?

As promessas de apuramento de "responsabilidades até ao limite" (Paula Teixeira da Cruz ), a admissão que estamos a "assistir a uma coisa que não é comum na História ... um ministro chegar ao parlamento e reconhecer a responsabilidade" (Nuno Crato), ou as 'desculpas' que se apresentam não são suficientes para evitar os danos causados na economia e sociedade portuguesa por tanta impreparação, improviso e amadorismo (quanto custará ao erário público/contribuintes estes erros?).

Pode parecer despropositado, mas estas sucessões de eventos e as desculpas apresentadas por parte dos nossos ministros relembrarem-me a definição de 'hipócritas' de Abraham Lincoln: "indivíduos que depois de matarem os pais imploram por misericórdia alegando que são órfãos".