Siga-nos

Perfil

Expresso

Não trabalhar para aquecer

No dia do trabalhador não se trabalha numa boa parte do mundo ocidental. Uma celebração "virada do avesso" que carrega uma história de luta e de lutos que remonta ao ano de 1886, nos Estados Unidos, na cidade de Chicago. No 1º de Maio desse ano, milhares de trabalhadores, em greve geral, saíram para a rua para reivindicar melhores condições de trabalho, entre as quais a redução da jornada de treze para oito horas diárias. Uma luta que foi árdua, com mais de cinco décadas, que culminou em confrontos policiais, mortos, e feridos.

Hoje a jornada de 8 horas é quase regra. Está no papel, mas raramente na prática, sobretudo no setor terciário. Colocar o trabalho acima de tudo tornou-se uma necessidade para quem quer manter o emprego e subir na carreira. E quanto mais alto se sobe, menos lazer. Carrega-se trabalho no portátil e no telemóvel. Pede-se desculpa à família e amigos para atender mais um telefonema ou responder a um email que não pode esperar. Dorme-se menos e há mesmo quem acorde durante a noite para anotar ideias protegendo futuros negócios do esquecimento.

Trabalha-se muito em pleno século XXI, contrastando com as previsões de Keynes, que nos anos 30 previa que em 100 anos as pessoas trabalhariam apenas 15 horas por semana. E Portugal não foge à regra. Aliás, os portugueses trabalham mais horas por semana do que os Espanhóis, Alemães ou os Nórdicos.

Trabalhar mais não significa produzir mais

Apesar de trabalharmos muitas horas, a produtividade em Portugal é uma das mais baixas da Europa. O problema não é o quanto se trabalha, mas o quanto se produz. Nos últimos anos, o foco tem sido a redução dos custos de produção como um objetivo prioritário para o aumento da competitividade das empresas e, consequentemente, da sua produção. Nesta linha, surgiram as constantes propostas da redução da TSU para as empresas, assim como o aumento do tempo de trabalho, reduzindo-se o número de feriados.

Mas trabalhar mais não significa produzir mais. Aliás, várias experiências feitas por empresas, nomeadamente a Ford, nos anos 20, mostrou que uma redução no tempo de trabalho pode até conduzir a aumentos de produção. Apesar das diferenças entre indivíduos, em média, a nossa atenção, energia, concentração e eficácia diminui com o número de horas de trabalho. O descanso é assim parte vital da produtividade.

Determinantes da produtividade

Em termos individuais, a produtividade depende da dificuldade das tarefas - a qual melhora com a tecnologia -, da experiência e das habilitações dos trabalhadores e, sobretudo, da sua motivação. Sendo assim, há que criar um ambiente de trabalho mais seguro, mais aprazível e mais saudável, promover a aprendizagem ao longo da vida, a formação no trabalho, um maior equilíbrio entre a vida profissional e familiar e dar maior autonomia aos trabalhadores.

Reduzir os custos unitários do trabalho, diminuindo salários e/ou aumentando o tempo que se trabalha, pode ser um "pau de dois bicos". Por um lado, pode aumentar a competitividade das empresas, gerar maior lucro, aumentar a confiança e o investimento, aumentar a inovação tecnológica e originar consequentes aumentos de produtividade e estes permitirem o pagamento de melhores salários ou aumentos do nível de emprego. Por outro lado, a redução de salários e o aumento do tempo de trabalho, são fatores de desmotivação da força laboral e podem conduzir a quebras de produtividade.

É possível, no entanto, diminuir os custos-unitários do trabalho por uma outra via, por exemplo, implementando melhores sistemas de incentivos. Vários estudos no campo da economia experimental, têm mostrado que, garantindo em média a mesma remuneração, diferentes esquemas de incentivos, como por exemplo, um salário fixo, pagamento à peça ou sistemas que promovem a competição entre colegas, levam a níveis de produtividade diferentes. Em geral, quanto maior a competição maior a produtividade. Mais precisamente, produz-se mais com o mesmo tempo disponível.

Assim, cabe às empresas e ao sector público criarem ambientes de trabalho onde existam mais interajuda e reciprocidade, implementarem incentivos corretos para os diferentes níveis hierárquicos, e promoverem uma cultura de trabalho onde exista uma aceitação, por parte dos trabalhadores, de um sistema de incentivos que compare e promova a excelência. Há oportunidades para a produtividade crescer com os recursos que temos. Temos apenas que saber fazer mais com menos.