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&conomia à 6ª

Filho único. As restrições de hoje, a preferência de amanhã

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Como de costume, com eleições à porta, as questões sobre a natalidade estão em cima da mesa. Esta semana apresentaram-se e discutiram-se uma panóplia de políticas de remoção de obstáculos e de incentivo à natalidade, que vão desde medidas de incentivo financeiro a medidas de conciliação entre a vida familiar e a vida profissional.

Estas políticas têm por base os resultados do Inquérito à Fecundidade de 2013 que, em linhas gerais, aponta que os portugueses têm menos filhos do que desejariam ter. Mais especificamente, parece imperar uma preferência por ter cerca de dois filhos, mas na realidade grande parte das famílias acaba por ter apenas um. Assim sendo, se efetivamente o desejo de ter mais filhos existe, então a solução é diminuir as restrições. E é esse o grande objetivo das medidas propostas.

Mas é preciso ter cuidado ao analisar apenas médias, sobretudo quando estamos a considerar várias gerações. É verdade que as restrições, sobretudo económicas e financeiras, impedem, em geral, os portugueses de ter mais filhos, mas não é menos verdade que as restrições enfrentadas por uma geração podem afetar as preferências das gerações seguintes, e, consequentemente, as medidas políticas de incentivo à natalidade.

Uma geração de filhos únicos

Desde o início da década de 80 que a fecundidade em Portugal não assegura a substituição das gerações. Este decréscimo acentuado da natalidade não se deve ao número de mulheres que não querem ter filhos. De acordo com o Inquérito à Fecundidade de 2013, apenas 8% dos inquiridos prefere não ter filhos. Foi a redução dos segundos nascimentos que contribuiu em 40% para o decréscimo da natalidade entre 1981 e 2009.

O início da maternidade cada vez mais tardio (em 2013, em média as mulheres têm o primeiro filho aos 30 anos), uma preferência por uma infância mais regrada e saudável e uma aposta na escolaridade e mobilidade social, aliada aos últimos anos de crise e austeridade, fez com que que muitas famílias adiassem o nascimento do segundo filho, acabando mesmo por ter apenas um.

Filho único: preferência ou restrição?

Em média os inquiridos dizem desejar ter cerca de dois filhos. Mais, cerca de 65.7% dos inquiridos considera que ter um filho único não é bom. Mas quando analisamos a questão se "é preferível ter só um filho com mais oportunidades e menos restrições do que ter mais filhos", existem diferenças evidentes entre gerações. Por exemplo, 49% das mulheres entre os 40 e 49 anos concorda com a afirmação; percentagem que sobe para 66% na faixa etária dos 18 aos 29 anos. Em relação aos homens inquiridos, 51.9% com idades entre os 40 e 59 anos concorda com a afirmação; percentagem que sobe para 71.1% na faixa etária dos 18 aos 29 anos.

diferentes preferências geracionais e tudo aponta para que a sociedade caminhe para um modelo mais individualista. Quem hoje tem mais de 30 anos terá crescido com irmãos (apenas cerca de 10% dos inquiridos com mais de 30 anos foram filhos únicos). É então de esperar que o modelo preferido destas gerações seja o de uma família com pelo menos dois filhos. Mas como serão as preferências quanto ao número ideal de filhos dos filhos de hoje, ou seja, dos indivíduos que, em grande maioria, cresceram em agregados de um filho só?

Mais, estas crianças estão a crescer num novo contexto económico-social. Aprenderam que não há empregos estáveis, que de um momento para o outro se fica desempregado, que uma licenciatura não chega e que é preciso emigrar quando o país está em recessão. É de esperar portanto que os filhos de hoje ajustem as suas preferências quanto à natalidade, e não seria de estranhar que, de futuro, prefiram famílias sem filhos ou com um filho único.

Não há mais tempo a perder. As políticas de incentivo à natalidade têm de ser implementadas o quanto antes para diminuírem as restrições que impedem as famílias de hoje de terem mais filhos. E, em antecipação ao que é de esperar que aconteça às preferências quanto ao número de filhos das próximas gerações, não seria mal pensado implementar também campanhas que promovam, por exemplo, a importância dos irmãos e da partilha para o crescimento e desenvolvimento das crianças. Ou seja, campanhas que tenham impacto nas preferências dos indivíduos. Porque na política há que ser visionário e não esquecer que as restrições de hoje podem condicionar fortemente as preferências de amanhã.