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&conomia à 6ª

Ciclo vicioso de amor e ódio

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Esta semana, na zona da Grande Lisboa, um bebé de 6 meses, de seu nome Henrique, foi brutalmente esfaqueado pelo pai. O casal, que se havia separado após um historial de violência doméstica, havia reatado a sua relação e da reconciliação nasceria o seu filho, agora assassinado.

Esta história horrenda é semelhante a tantas outras. Histórias de relações que são sustentadas por ciclos de agressão física e psicológica seguidos de perdão. Mesmo nas relações em que a mulher, em geral a maior vítima direta de violência doméstica, ganha coragem para deixar o agressor, a reconciliação é um lugar comum. Este ciclo, em casos extremos, é perpetuado até que a morte os separe. E não é demais referir que na última década morreram 398 mulheres em contexto de violência doméstica e que cerca de 10 crianças por ano são assassinadas pelos progenitores. À semelhança do Henrique, os filhos são muitas vezes usados como armas de arremesso nestas relações de poder, "amor" e ódio.

As ciências do foro psicológico e sociológico em geral justificam a existência destes ciclos de agressão, separação e reconciliação pela forte dependência emocional e económica entre o agressor e a vítima, pelas expetativas que a vítima tem que o agressor mude e pela pressão de terceiros que insistem na reconciliação do casal.

As explicações da teoria economia neoclássica

A ciência económica neoclássica oferece também algumas explicações possíveis para estes ciclos "fim-reconciliação". Uma primeira explicação assume que o fim da relação e uma eventual queixa policial podem ser usados pela vítima como instrumentos para aumentar o poder negocial na relação. Neste caso, o fim da relação não é um objetivo em si mesmo, mas uma mera ameaça, e o regresso à relação é o resultado de uma negociação consciente. Uma segunda explicação baseia-se na hipótese de que a vítima faz análises probabilísticas da violência doméstica, terminando a relação se a probabilidade de sofrer violência for alta e retomando-a se a probabilidade for relativamente baixa. A terceira explicação assume que a vítima não tem informação completa quando abandona o agressor. Ou seja, as mulheres saem de uma relação violenta sem saberem o que lhes espera no mundo lá fora. Uma vez conscientes das alternativas, na sua grande maioria cheias de dificuldades, reavaliam o valor da relação e retomam-na. Por último, a teoria de Gary Becker sobre comportamentos de dependência é também usada para explicar a existência dos ciclos "fim-reconciliação" nas relações violentas. Esta teoria assume que, em casos de dependência, o consumo presente tem um impacto muito grande no consumo futuro. Por exemplo, fumar hoje aumenta a vontade de fumar mais amanhã, e pequenas abstenções podem levar a um consumo de tabaco exagerado. O mesmo mecanismo poderá explicar o regresso das vítimas a relações violentas. O afastamento temporário aumenta o desejo de retorno em caso de existir uma grande dependência.

A visão da teoria económica comportamental

As explicações dadas pela ciência económica neoclássica assumem que os indivíduos, vítimas e agressores, são racionais nas suas escolhas e conseguem prever os custos e benefícios inerentes às suas decisões, mesmo em casos de dependência. Mais, assumem que os indivíduos têm preferências temporalmente consistentes, ou seja, se a vítima decidir hoje abandonar o agressor e se daqui a um mês nada mudar, a decisão de abandonar a relação deverá ser mantida. No entanto, a teoria económica comportamental tem mostrado que os indivíduos não têm preferências temporalmente consistentes. Por exemplo, entre receber 100 euros hoje ou 101 euros amanhã preferem receber 100 euros hoje, mas entre receber 100 euros daqui a mês ou 101 euros daqui a um mês e um dia preferem esta última opção.

Anna Aizer e Pedro Dal Bó, da Universidade de Brown, mostram que preferências temporais inconsistentes são uma explicação plausível para o ciclo vicioso "fim-reconciliação" nas relações violentas. No momento da agressão, o medo e o choque faz com que as vítimas atribuam um valor baixo à relação e se queiram separar, sem qualquer intenção de retorno, mas à medida que o tempo passa, e o medo dá lugar à outros sentimentos, por exemplo, saudade, o valor da relação aumenta e a reconciliação é possível. No fundo, nada mudou a não ser o estado emocional da vítima. Mas, as emoções não fazem parte da teoria económica neoclássica.

Neste caso, medidas que de certa forma obriguem a vítima a manter a palavra, disciplinando as preferências e firmando intenções são muito importantes para quebrar o ciclo vicioso. Mesmo sendo a violência doméstica um crime público, em que a vítima não pode retirar a queixa contra o agressor, é importante que o Ministério Público e o Juiz de Instrução não sejam mansos e que não arquivem processos sem julgamento, a requerimento "livre e esclarecido" da vítima, impondo apenas algumas regras a agressores (como, por exemplo, programas de combate ao alcoolismo) e permitindo assim que relações tóxicas se perpetuem. Por muito que doa, há que fazer ver às vítimas que já Ulisses sabia que para evitar ser enfeitiçado pelo canto das sereias teve de ser preso ao mastro.

 

Aizer, A. and Dal Bó, P. (2009). Love, hate and murder: Commitment devices in violent relationships. Journal of Public Economics, 412-428