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&conomia à 6ª

As raízes da desigualdade

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Em muitas profissões as mulheres estão já em pé de igualdade com os homens mas nos lugares de topo das empresas ainda mal lá chegam. A percentagem de mulheres CEO de empresas cotadas em bolsa é menos de 10% e menos de 5% são presidentes. Em resposta a estes números, no início do ano, o governo anunciou que o número de mulheres nos lugares de administração será critério de desempate no acesso a novos fundos europeus. Incentivos como este são bem vindos, mas não são suficientes, porquanto a desigualdade não tenha as suas raízes apenas na discriminação.

É um facto inegável e global que na subida da escadaria empresarial muito mais mulheres do que homens ficam pelo caminho. Existem e persistem barreiras, aparentemente invisíveis, muito difíceis de transpor, mas que vão para além de barreiras puramente discriminatórias. Não podemos negar que homens e mulheres são em média diferentes quanto a características e preferências. Por exemplo, no que respeita ao equilíbrio entre a vida familiar e profissional, nos estilos de liderança, nas atitudes face ao risco, e nas preferências por ambientes competitivos. É difícil, olhando apenas para os números, saber qual o peso de cada uma destas barreiras. Mas é importante sabê-lo, para melhor delinear estratégias e políticas de intervenção.

O contributo da Economia Experimental 

A economia experimental tem dado o seu contributo. E a grande vantagem de experiências laboratoriais e de campo, é conseguir isolar a importância de determinados fatores mantendo outros constantes, nomeadamente diferentes preferências num contexto onde a discriminação é inexistente.

Considere-se a seguinte experiência de campo. Colocaram-se no site norte-americano Craigslist anúncios para uma posição de assistente administrativo; a posição era real e o emprego seria numa universidade norte-americana. O número de respostas foi cerca de 7000. Depois, contactaram-se os potenciais interessados e informou-se metade deles que a remuneração seria fixa e de $15 por hora. À outra metade foi dito quer ganhariam $12 por hora mais um bónus de $6, mas que teriam de competir com um colega de trabalho. Os resultados mostraram que a probabilidade das mulheres aceitarem o trabalho em que teriam de competir foi 70% inferior à dos homens.

Diferenças genéticas ou sócio-culturais?

Independentemente de discussões éticas, é importante investigar cientificamente se as diferenças são genéticas ou sócio-culturais. Neste sentido, um grupo de investigadores americanos e europeus, no qual me incluo, conduziu experiências em sociedades patriarcais e matrilineares no nordeste da Índia. Os participantes foram recrutados para desempenhar uma tarefa simples (atirar bolas a um balde) e tiveram de escolher a forma como foram remunerados: pelo total de bolas que acertassem ou em regime de competição, caso em que ganhariam um total por bola mais elevado mas teriam de competir com um adversário. Se perdessem ganhavam zero. Nas sociedades patriarcais os homens preferiram competir e o inverso observou-se nas sociedades matrilineares. Mais, as diferenças entre as sociedades surgem por volta da puberdade.

Estes resultados sugerem que para além de políticas de combate à discriminação de género nas empresas, as intervenções, nomeadamente nas escolas, que permitam quebrar estereótipos que têm impacto em preferências, são necessárias. É que as escadas a subir no mundo empresarial constroem-se cá fora e muitos anos antes da entrada no mercado de trabalho.

http://restud.oxfordjournals.org/content/early/2014/10/03/restud.rdu030.abstract

http://www.mitpressjournals.org/doi/pdf/10.1162/REST_a_00312