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Expresso

O que eles precisam é delas

A propósito do Dia Internacional da Mulher, a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro, anunciou algumas novidades, discutidas esta quinta-feira pelo Conselho de ministros no âmbito da Estratégia Nacional para a Igualdade e Não Discriminação de Género. Ficámos a saber que o Governo vai reforçar as quotas de género nos órgãos de fiscalização e conselhos de administração das empresas públicas, passando de 33,3% para 40%. O governo aprovou também uma proposta que prevê que 40% dos dirigentes superiores do Estado sejam mulheres, e é esperado que as novas regras abranjam também universidades, o Parlamento e ordens profissionais.

Antes que se atirem pedras às quotas e às novas percentagens, importa relembrar que o que está em cima da mesa não é discriminar positivamente as mulheres, dando-lhes acesso a cargos para os quais não tem mérito para tal. Pelo o contrário, as quotas permitem com que as mulheres não sejam, à partida, preteridas para determinadas posições de topo, sem qualquer racionalidade económica para tal. O que ainda afasta as mulheres das posições de liderança é a existência de estereótipos e ideias preconcebidas à cerca da capacidade feminina. Por exemplo, acreditar-se que as mulheres não são tão capazes quanto os homens em contextos competitivos, onde a pressão e a incerteza são elevadas, e acreditar-se também que as mulheres têm ou devem ter o papel principal como cuidadoras da família, não investindo tanto quanto os homens na carreira profissional. Mais, as mulheres ficam por vezes aquém nas promoções e contratações porque quem decide prefere escolher para as suas equipas outros que lhe são semelhantes.

Se há algo que as quotas fazem, e fazem-no muito bem, é oferecer a quem está tão habituado a trabalhar e liderar apenas com os seus pares a oportunidade de experimentar uma composição de género diferente, quebrando tabus e estereótipos, aumentando a confiança naqueles que se desconhece e sobre os quais se faz, muitas vezes, injustos juízos de valor.

Um estudo publicado em fevereiro de 2018, no National Bureau of Economic Research, por três investigadores das Universidades de San Diego, Estocolmo e Oslo, mostra de uma forma simples, com uma experiência de campo, que uma maneira eficaz de se combater os estereótipos de género e os preconceitos à cerca do desempenho feminino, é simplesmente pôr homens e mulheres a trabalharem juntos.

A experiência foi realizada em 2014 num ambiente extramente masculino, onde a percentagem de mulheres é muito diminuta: num campo militar na Noruega. A questão a investigar era simples, e passava por saber se a integração das mulheres em esquadrões totalmente masculinos, durante um acampamento militar de oito semanas, levaria os homens a adotar visões e atitudes mais igualitárias. Na experiência participaram 781 homens e 119 mulheres.

Antes serem criados grupos aleatórios, uns só de homens e outros mistos, para o respetivo acampamento, e de modo a inferir sobre as perceções e atitudes destes homens e mulheres em relação ao género, aos miliares foi pedido que expressassem o grau de concordância ou discordância em relação a algumas afirmações, nomeadamente as seguintes: “Equipas com pessoas do mesmo sexo têm melhor desempenho” e “É importante que homens e mulheres partilhem de forma igualitária o trabalho doméstico”. Foi também inferida a perceção dos inquiridos sobre a sua identidade de género, ou melhor sobre a perceção acerca da sua feminilidade. Mais especificamente, os inquiridos teriam de dizer o quanto a afirmação “Eu sou feminino(a)” se encaixaria ou não na sua personalidade. Outras questões sobre liderança e demografia foram colocadas, e os militares foram também sujeitos a testes psicológicos e de aptidão física.

Os resultados mostram que existem diferenças de base significativas entre homens e mulheres na resposta a estas questões, apesar da experiência ter sido foi feita na Noruega, um país muito progressista nas questões de género. Apenas 10% das mulheres mostrou acreditar que as equipas com pessoas do mesmo sexo têm melhor desempenho, ao passo que 37% dos homens concordou que o desempenho é maior nas equipas com membros do mesmo sexo. Em relação ao trabalho doméstico, 88% das mulheres e 66% dos homens concordou que deveria existir uma divisão igualitária de tarefas. Embora nenhum homem se tenha considerado feminino, 58% não descartou a ideia de que as suas personalidades poderiam conter traços de feminilidade. A maioria das mulheres disse serem femininas até certa medida.

Nas oito semanas seguintes as equipas mistas e não mistas, formadas aleatoriamente, viveram, trabalharam e treinaram juntas. No final, os homens dos acampamentos mistos expressaram opiniões mais igualitárias em comparação aos que tiveram em acampamentos só masculinos. Mais especificamente, ficaram 13 pontos percentuais menos propensos a acreditar que as equipas formadas com pessoas do mesmo sexo têm melhor desempenho. Mais, os que ficaram em acampamentos mistos passaram a estar mais propensos a afirmar que o trabalho doméstico devia ser dividido de forma igual (diferença de 8 pontos percentuais).

Surpreendentemente, também mais propensos a assumir o seu lado feminino (diferença de 14 pontos percentuais). Tendo em conta as médias de respostas antes e depois da intervenção, verificou-se uma redução da diferença entre perceções e atitudes masculinas e femininas face ao género entre 31% e 46%. Foi também calculado o impacto nas respostas de outras variáveis, como por exemplo ter amigas e irmãs, e verificou-se que o efeito da experiência, ou seja, viver, trabalhar, e treinar com mulheres durante 8 semanas, tem maior impacto.

As quotas, ao contrário do que muitos advogam, não limitam a liberdade de escolha, mas no limite aumentam essa liberdade, porque têm a capacidade de alterar preferências que apenas estão alicerçadas no preconceito. Para os que ainda resistem e insistem que as quotas são tudo o que as mulheres menos precisam, esperem para ver.

Dahl, G., Kotsadam, A., Rooth, D. (2018). Does Integration Change Gender Attitudes? The Effect of Randomly Assigning Women to Traditionally Male Teams, NBER