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Expresso

Pôr os pontos nos “is”

Desde que Richard Thaler ganhou o Nobel da Economia que muito se tem escrito sobre a economia comportamental. Há quem escreva perdido de amores, fascinado com a ideia do “homo-irracional” e com a suposta inutilidade de modelos económico-matemáticos. Outros há que levantam a voz para defender a teoria neoclássica, escrevendo palavras de escárnio e mal dizer sobre a economia comportamental.

Esta semana, o Luís Aguiar-Conraria, professor na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho*, foi uma dessas vozes do contra. O seu artigo no Observador, “A montanha pariu um rato”, elenca uma série de exemplos e situações que pretendem mostrar que o impacto da economia comportamental tem sido modesto e insuficiente para “abalar o edifício neoclássico”. Um destes exemplos, refere uma intervenção na área da saúde com doentes que sofreram um enfarte do miocárdio. A intervenção pretendia fazer com que estes doentes tomassem a medicação. Um dos grupos foi monitorizado normalmente e o outro foi alvo de diferentes incentivos formais e informais, como a atribuição de raspadinhas com uma probabilidade considerável de ganhar um prémio em dinheiro, apoios sociais, frascos de medicamentos eletrónicos que avisavam se a medicação tinha sido tomada, entre outras intervenções. Ao que parece, o comportamento dos dois grupos não diferiu de forma estiticamente significativa. A intervenção não melhorou a saúde dos doentes e nem fez com que estes tomassem a medicação. O falhanço desta intervenção é, na opinião do Luís, um falhanço da própria economia comportamental. Sobre isso, não poderia estar em maior desacordo.

Metodologicamente, a intervenção tem alguns problemas, como aplicar diferentes incentivos num só grupo. Se uns incentivos tiverem efeitos positivos e outros incentivos gerarem efeitos negativos, o efeito total pode ser nulo. Mas ignorando questões metodológicas e considerando os incentivos em si, não vejo onde falha a economia comportamental. Primeiro, o facto de os doentes não reagirem a incentivos monetários, como a raspadinha, não põe em causa a economia comportamental, mas sim os pressupostos da teoria neoclássica que assume que os indivíduos são racionais e gostam de dinheiro, quanto mais melhor. Segundo, os avisos eletrónicos ou chamadas de atenção de amigos só seriam eficazes se o problema dos pacientes fosse o esquecimento. Por último, os apoios sociais teriam efeito se a falta de dinheiro fosse o problema. O insucesso da intervenção não deita abaixo a economia comportamental, mas mostra apenas que o que cai por terra são algumas hipóteses subjacentes à decisão de tomar ou não a medicação. Por muito que a intervenção não tenha gerado efeitos positivos, não significa que não tenha sido importante para perceber quais as medidas que fazem ou não sentido implementar. Mais, despender algum dinheiro com uma amostra de doentes é sem dúvida melhor do que aplicar uma medida política de forma generalizada que afinal só terá custos sem benefícios.

A visão do Luís sobre a economia comportamental é partilhada por muitos economistas neoclássicos que assumem que a economia comportamental não tem grande fundamento teórico e que é uma espécie de ciência médica, que identifica, prevê, controla e/ou trata a irracionalidade humana através de pequenas intervenções, ou “nudges” para que os agentes económicos tomem decisões mais acertadas. Por exemplo, consideram que os economistas comportamentais receitam estratégias para que os indivíduos, poupem mais, consumam alimentos mais saudáveis, façam mais exercício físico, e não se esqueçam da medicação. Mas a contribuição da economia comportamental vai para além dos “nudges” e da prescrição de intervenções.

A economia comportamental distingue-se da economia neoclássica pela importância que dá ao realismo dos pressupostos dos modelos teóricos. Estes pressupostos, sejam eles de origem fisiológica, psicológica, sociológica ou institucional são importantes para estabelecer causalidades e para fazer previsões corretas. Esta ideia contrasta com a visão do grande economista neoclássico Milton Friedman que assume que os pressupostos não interessam e que apenas conta a precisão das previsões analíticas geradas pela teoria. No entanto, várias experiências mostram que as previsões dos modelos são sensíveis a alterações nos “pressupostos irrelevantes”. Por exemplo, os modelos neoclássicos assumem a existência de N agentes racionais, homogéneos nas suas preferências. Mas as experiências laboratoriais têm mostrado, sobretudo em contextos laborais, que os comportamentos dos agentes mudam consoante o tamanho do grupo em que estão inseridos.

Há outras visões para além do nudging

Na economia comportamental existem três escolas de pensamento. Existe uma escola que advoga que os agentes não se comportam de forma neoclássica, por exemplo, têm preferências sociais e morais, mas o resultado das suas decisões não é necessariamente subótimo, sendo por isso racional. Por exemplo, há empresas que têm um comportamento que se não se coaduna com a maximização dos lucros “à la teoria neoclássica”, mas que no longo prazo sobrevivem, mostrando que o seu comportamento não é irracional. Considere, por exemplo, a REI, uma empresa americana que vende artigos de campismo e de desporto, e que mais uma vez não abriu portas no Black Friday porque considera que os funcionários têm direito a um fim de semana com a família. Este comportamento, aparentemente em desacordo como a maximização do lucro, atrai certos consumidores e pode no longo prazo trazer vantagens. Uma segunda escola de pensamento, advoga que os agentes económicos são inteligentes, fazem escolhas inteligentes, mas têm racionalidade limitada porque não têm toda a informação disponível. Neste caso, aplicar heurísticas e processos de escolha que são diferentes do processo de maximização pode fazer mais sentido e não vale a pena alterar o comportamento dos agentes por forma a que decidam melhor. Por último, existe uma escola de pensamento, popularizada por Daniel Kahnaman e Richard Thaler, que assume que os indivíduos são irracionais e que aplicam heurísticas nas suas decisões porque têm enviesamentos cognitivos e erram sistematicamente. Neste caso, assume-se que corrigir comportamentos é importante para que se gerem resultados melhores do ponto de vista do bem-estar. Estas três visões existentes na economia comportamental têm largamente contribuído para a teoria económica, análise económica e política económica, e não é justo avaliar a economia comportamental olhando exclusivamente para uma destas escolas de pensamento.

A contribuição da economia comportamental para a teoria económica

A economia comportamental tem contribuído para melhorar a teoria económica, muitas das vezes criando modelos comportamentais que são mais realistas, mas não necessariamente menos complexos que os modelos neoclássicos.

Um exemplo interessante de como a economia comportamental pode afetar a teoria económica relaciona-se com a teoria da oferta de trabalho. De acordo com a teoria neoclássica, os indivíduos escolhem o tempo de trabalho e o tempo de lazer em função das suas preferências e da taxa salarial. Existem dois efeitos importantes, o chamado efeito substituição, que nos diz que os indivíduos trabalham mais, abdicando de horas de lazer, se a taxa salarial aumentar. Existe também o chamado efeito rendimento que mostra que quanto mais rendimento se tem mais se substitui o trabalho por lazer. Em geral o efeito substituição é dominante, explicando o facto da curva de oferta de trabalho ser

positiva, até ao momento em que o efeito rendimento domina e a curva eventualmente sofre uma inflexão. Esta teoria é esteticamente bonita, mas tem dificuldade em explicar porque é que o efeito substituição é dominante e até quando é dominante. Mais, a teoria mostra que os indivíduos devem trabalhar menos se o salario baixar, um facto que não é observado na realidade, muito pelo o contrário.

A teoria comportamental, através de experiências laboratoriais e de campo têm mostrado que os indivíduos têm objetivos a alcançar no que respeita ao nível de rendimento desejado, ou seja, têm um alvo em mente, que em geral aumenta ao longo do tempo. Este alvo varia dependendo dos salários dos colegas pois por muito que o nosso salário seja, este sabe sempre a pouco se ganharmos menos que os nossos pares. Dada a existência de um rendimento alvo, se os salários se diminuírem é natural que a oferta de trabalho aumente para que o alvo continue a ser atingido. Mais, se o rendimento alvo aumentar, a oferta de trabalho aumenta mesmo sem aumentos salarias. O aumento de salários pode reduzir a oferta de trabalho apenas se esse aumento permitir que se atinja o rendimento objetivo com menos horas trabalhadas, o que tem acontecido em algumas economias desenvolvidas, onde aumentos salarias têm sido acompanhados com menos horas de trabalho semanais.

Este exemplo não é o único que mostra que a teoria neoclássica pode ser melhorada incorporando fenómenos comportamentais sem necessariamente alterar pressupostos de racionalidade. A mim parece-me que a montanha já pariu muito mais do que um rato e que a teoria neoclássica já sofreu abanões suficientes, mas também me parece que todos ganhamos mais se trabalharmos em conjunto para que a ciência económica progrida e seja um instrumento útil para o crescimento e desenvolvimento das sociedades.

* O Luís, para além de ser um neoclássico assumido, será em breve meu co-autor num livro onde a visão neoclássica e comportamental tanto andam às turras como se abraçam.