Siga-nos

Perfil

Expresso

Os ciclos menstruais não são um bicho mau

“Não tenho dias maus porque não sou mulher”, diz o Presidente da Rússia, Vladimir Putin no documentário “The Putin Interviews”, realizado por Oliver Stone. E acrescenta ainda, “não estou a tentar insultar ninguém. É apenas a natureza das coisas. Há certos ciclos naturais”.

Putin não é o único conhecedor da existência dos ciclos menstruais, nem certamente está sozinho neste pensamento machista que “enaltece” as mulheres como seres de humor volátil e de dores de cabeça constante. É verdade, os ciclos menstruais existem, mas serão assim um bicho tão mau?

Estudos na área da neurociência e neuroeconomia têm mostrado que a atividade cerebral é influenciada por mudanças hormonais. Mais especificamente, as alterações hormonais têm impacto quer na atividade cerebral relacionada com o processamento de recompensas e prazer, quer na resposta a estímulos emocionais. Esta influência hormonal deve-se ao facto de na região cerebral onde são processadas as recompensas e emoções relacionadas com a tomada de decisões, o chamado núcleo accumbens, encontrarem-se recetores de estrogénio e progesterona. Portanto, não é de estranhar que escolhas económicas, nomeadamente decisões de investimento, sejam afetadas pelo ciclo menstrual.

Quanto a preferências e decisões económicas, são conhecidas algumas diferenças entre géneros. Por exemplo, as mulheres apresentam maior aversão ao risco e maior aversão a perdas e têm menor apetência por ambientes competitivos. Estas diferenças têm sido reveladas através de experiências laboratoriais e de campo e têm contribuído para explicar a existência e permanência de desigualdades no mercado de trabalho, tais como salários mais baixos para as mulheres, maior dificuldade de ascensão na carreira, e uma presença minoritária das mulheres em cargos de topo e de liderança. A questão que se coloca é saber até que ponto as oscilações hormonais potenciam estas diferenças.

Um estudo realizado pelos neurocientistas Stephanie Lazzaro, Robb Rutledge, Daniel Burghart e Paul Glimcher investigou, através de experiências laboratoriais, se as diferenças entre homens e mulheres no que respeita à racionalidade e decisões económicas têm uma causa hormonal. Primeiro, foram realizadas experiências para determinar se o ciclo menstrual está associado a alterações na racionalidade económica. Para testar a racionalidade, os autores implementaram uma experiência onde os participantes fizeram escolhas de consumo, testando, assim, um princípio básico da teoria económica – o princípio da transitividade. Este princípio diz-nos, por exemplo, que se preferirmos morangos a cerejas, e cerejas a framboesas, então preferimos morangos a framboesas. Se assim não for, as escolhas não serão consistentes, sendo assim irracionais. Depois foram realizadas experiências, com base em lotarias, com o objetivo de testar quer a aversão ao risco, quer a perdas. Os participantes consistiram em 39 mulheres em idade reprodutiva e 36 homens numa faixa etária semelhante. As mulheres participantes fizeram testes de ovulação ao longo de vários meses. Nos dias das experiências, amostras de sangue foram recolhidas para medir os níveis hormonais.

Os resultados do estudo mostram que as mulheres em idade reprodutiva são racionais em todas as fases do ciclo menstrual. Mais especificamente, não foram encontradas mudanças significativas no grau de racionalidade ao longo do ciclo, sendo o grau de racionalidade feminino semelhante ao masculino. Quanto a preferências de risco, à semelhança de outros estudos, verificou-se que as mulheres são mais avessas ao risco, mas não foram encontradas alterações durante o ciclo menstrual. No que respeita a aversão a perdas, no início do ciclo, durante a fase folicular e no final do ciclo, durante a fase lútea, as mulheres são tão avessas quanto os homens. No período da ovulação, as mulheres são menos avessas a perdas do que os homens, comportando-se assim de uma forma mais consistente com a teoria económica neoclássica. É interessante verificar que, à exceção do período de ovulação, neste estudo não se identificaram diferenças entre a fase hormonal baixa, que acontece no início do ciclo (níveis de estrogénio e progesterona ambos baixos) e a fase hormonal alta, no final do ciclo (níveis de estrogénio e progesterona ambos altos).

No que respeita a preferências competitivas, David Wozniak, William T. Harbaugh e Ulrich Mayr mostraram que as mulheres na fase hormonal alta estão mais disponíveis a competir do que na fase baixa, mas estas diferenças biológicas deixam de existir quando é fornecida informação sobre o desempenho relativo dos participantes. Este estudo mostra que as diferenças biológicas não são tão determinantes e que podem se tornar inexistentes com simples intervenções.

Os ciclos hormonais podem até causar algumas dores de cabeça, mas não podem ser o bode expiatório para as diferentes preferências entre homens e mulheres e nem podem ser usados para criar diferenças que não existem.

Stephanie C. Lazzaro, Stephanie, Rutledge, Robb, Burghart, Daniel, Glimcher, Paul (2016). The Impact of Menstrual Cycle Phase on Economic Choice and Rationality. PLOS One.

Wozniak, David, Harbaugh, William e Mayr, Ulrich (2014). The Menstrual Cycle and Performance Feedback Alter Gender Differences in Competitive Choices. Journal of labor Economics, Vol. 32, n. 1