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Expresso

&conomia à 6ª

“Believe me”

E ao som de Jazz, Donald Trump virou costas ao mundo, à humanidade e à ciência ao anunciar a retirada dos EUA do acordo de Paris. Fê-lo em jeito de cruzada, como salvador da pátria e da massa de trabalhadores brancos e empobrecidos pela globalização. Trump gritou ao mundo os seus argumentos. O acordo prejudica a livre expansão industrial, beneficia a Índia e a China e leva à perda, até 2025, de 2.7 milhões de postos de trabalho. “Believe me”, disse Trump.

O Presidente dos Estados Unidos é largamente conhecido pela sua capacidade inventiva e hiperbólica, desde ataques terroristas que não aconteceram, a estatísticas que caíram do céu. Mas desta vez, os números têm uma fonte, vieram do relatório “Impacts of Greenhouse Gas Regulations on the Industrial Sector” da consultora NERA - National Economics Research Associates. Este relatório foi encomendado pela U.S. Chamber of Commerce Institute for 21st Century Energy e pelo American Council for Capital Formation, duas instituições que têm largamente defendido a atitude poluidora dos Estados Unidos em nome da competitividade. No relatório, pode ler sobre os imensos estragos que o acordo de Paris causa na economia americana, em particular nos quatro principais estados industriais — Michigan, Missouri, Pensilvânia e Ohio. Até 2025, o relatório prevê uma quebra de 250 biliões de dólares no produto interno bruto e uma redução no emprego no setor industrial de 1.1 milhão de postos de trabalho, sobretudo nos setores do ferro e aço, do cimento e da refinação de petróleo. Mais, os custos mais elevados com a energia também prejudicariam a competitividade externa e procura interna de outros setores.

O que é duvidoso é que estes números fatídicos vêm de um modelo bastante rígido que não prevê que as empresas inovem para dar resposta aos custos acrescidos causados pela regulação. Esta hipótese não é de todo realista, sobretudo nos tempos que correm. Mais, como Kenneth Gillingham, professor de Economia da Universidade de Yale, afirma, a análise da NERA debruça-se exclusivamente sobre os custos, ignorando os potenciais benefícios da redução de emissão de gases para a sociedade e economia americana. Mais, foca-se na perda de emprego na indústria do carvão, petróleo e gás e ignora o emprego criado nas energias renováveis.

Trump rejeitou o consenso científico baseado em números hiperbolizados pela manipulação de hipóteses e por uma análise parcial que calcula custos e ignora os benefícios. Uma análise que serve o propósito de manipular a opinião pública, sobretudo o grupo de votantes e apoiantes de Trump. O mundo perdeu com a retirada dos Estados Unidos do acordo de Paris e dificilmente a meta para o aquecimento global será cumprida. Mas sem dúvida que os Estados Unidos saem também como grandes perdedores nesta história. Para já, já deixaram o caminho aberto à China para se tornar líder no acordo de Paris e para a cooperação e acordos bilaterais entre esta e a Europa.