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Expresso

As mulheres não servem para o xadrez

O eurodeputado polaco de extrema-direita, Janusz Korwin-Mikke, já conhecido pelas suas afirmações racistas, xenófobas e sexistas, veio atirar mais lenha para a fogueira ao afirmar que as mulheres são “mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes” do que os homens, devendo por isso ganhar menos que estes. Como prova, destacou a ausência de mulheres entre os 100 melhores jogadores de xadrez do mundo.

Infelizmente, a ideia de que as mulheres não servem para o xadrez, tem sido partilhada por muitos jogadores ao longo dos últimos 300 anos. Por exemplo, em 1906, lia-se na “Lkasker’s Chess Magazine” que a ausência de mulheres entre os grandes mestres de xadrez devia-se ao facto destas não terem a necessária capacidade de concentração, compreensão, imparcialidade e originalidade. O mais chocante é que esta mensagem tem chegado aos dias de hoje pela voz de grandes mestres do xadrez, como o britânico Nigel Short que afirmou que “os homens estão melhor programados para jogar xadrez”.

Há que saber ler os números

Janusz e outras tantas mentes brilhantes pecam pelo simplismo na argumentação. Referir a ausência de mulheres entre os grandes mestres de xadrez sem referir a enorme disparidade entre o número de jogadores masculinos e femininos mostra no mínimo desonestidade intelectual. Como existem muitos mais homens a jogar xadrez do que mulheres é mais provável que os jogadores com melhor performance venham do grupo mais numeroso. E este facto foi já mostrado por uma equipa de investigadores da Universidade de Oxford. Merim Bilalic e co-autores contruíram um modelo matemático que permitiu controlar para a disparidade no número de jogadores femininos e masculinos. Usando dados de 120 mil jogadores de xadrez alemães, entre os quais cerca de 113 mil homens, mostraram que a maior proporção de jogadores masculinos explica 96% das diferenças na performance entre géneros. Ou seja a masculinização do top 100 resulta mais de um facto estatístico do que de diferenças entre géneros. Mas uma questão fundamental persiste.

Porque não há mais mulheres a jogar xadrez?

Em 2013, os psicólogos americanos Hank Rothergerber e Katie Wolsiefer mostraram que raparigas a partir dos 6 anos reconhecem e acreditam na veracidade do seguinte estereótipo: “os rapazes são melhores que as raparigas no xadrez”. Mais, esta convicção afeta a forma como jogam. Analisando os dados de 12 torneios, e tendo acesso aos ratings de cada jogador, Rothergerber e Wolsiefer mostraram que quando as raparigas jogam contra rapazes de igual performance, ou seja com mesmo rating, perdem mais do que seria expectável, o que não acontece se o seu adversário for uma outra rapariga do mesmo nível. Num estudo semelhante, mas com adultos, realizado por investigadores da Universidade de Pádua, os resultados não divergiram. O estudo considerou 42 jogadoras de xadrez que tiveram de jogar online. Quando não lhes foi dito se estavam a jogar contra um homem ou uma mulher, ou mesmo quando lhes foi dito erradamente que estavam a jogar contra uma mulher, os resultados obtidos foram os expectáveis dados os ratings dos jogadores. Mas quando lhes disseram que estavam a jogar contra um homem os resultados foram piores.

Obviamente, quanto mais as raparigas acreditarem que o xadrez não é uma atividade para elas, mais tendem a desistir e a procurar atividades alternativas diminuindo cada vez mais a possibilidade de encontrarmos grandes mestres mulheres.

Maior aversão a ambientes competitivos

Há vários estudos experimentais que mostram que o desempenho feminino é tão bom quanto o desempenho masculino, quer em ambientes competitivos, quer não competitivos. No entanto, o excesso de confiança masculino explica que em várias experiências laboratoriais e de campo, os participantes masculinos prefiram desempenhar tarefas num ambiente competitivo, por exemplo em torneio. Por sua vez, as mulheres tendem a preferir o desempenho das mesmas tarefas em ambientes não competitivos, por exemplo, preferindo ser remuneradas pelo seu desempenho individual do que remuneradas consoante o seu desempenho num torneio. É de referir que estes resultados não são completamente explicados por diferenças hormonais e genéticas. Experiências semelhantes que tive a oportunidade de realizar, em conjunto com investigadores americanos e europeus, em sociedades matrilineares na Índia, mostram que os resultados se invertem, observando-se, significativamente, mais mulheres que escolheram competir.

Uma menor preferência por ambientes competitivos pode ter reduzido o número de mulheres a jogar xadrez quer recreativamente, quer competitivamente. O xadrez não foi sempre um hobbie maioritariamente masculino. De acordo com Marilyn Yalom, a autora do livro “The birth of chess queen”, na Espanha Medieval, as mulheres jogavam xadrez enquanto recuperavam do parto. Relata-nos também que num conto francês de 1230, um cavaleiro teria de ganhar à filha de um mestre de xadrez para poder casar com ela. Mais, na Alemanha, no século XV, em escolas religiosas, o ensino do xadrez fazia parte do currículo de rapazes e raparigas. É por volta do século XVII, quando as regras do jogo mudam, que as mulheres saem de cena. A rainha e o bispo passaram a ser peças fundamentais e dominantes. O jogo de xadrez passou de um jogo de lazer para um jogo altamente competitivo jogado em cafés e casas públicas e considerado assim uma atividade indecorosa para as mulheres.

As mulheres servem tanto para o xadrez quanto os homens. Mas as mulheres foram literalmente afastadas desta atividade durante muitos anos, sobretudo quando o xadrez se tornou uma atividade competitiva. O afastamento criou ideias pré-concebidas de que as mulheres não têm tanta capacidade intelectual quanto os homens para jogar xadrez. Estas crenças persistem até aos dias de hoje porque infelizmente existe gente, como Janusz Korwin-Mikke, que não tem capacidade e/ou honestidade intelectual para apresentar números. Ou, mais certo ainda, sabem bem o que fazem, mas escolhem alimentar e transmitir números e ideias erradas com o simples intuito de perpetuar um sexismo bacoco.