Siga-nos

Perfil

Expresso

O abandono escolar e o que os números podem esconder

A taxa de abandono escolar, que caiu para metade em cinco anos, passando de 23% em 2011 para 13.7% em 2015, voltou a subir. Em 2016, 14% dos jovens entre os 18 e os 24 anos com o ensino secundário incompleto não frequentavam qualquer formação profissional ou académica equivalente. Este aumento, ainda que ligeiro, dificulta o cumprimento da meta dos 10% que constam da “Estratégia da Europa para a Educação 2020”, defendida pela Comissão Europeia.

No debate quinzenal na Assembleia da República, Luís Montenegro, líder da bancada social-democrata, atribui as culpas da subida da taxa a uma reforma educativa do atual governo e ao desinvestimento na formação profissional. António Costa, por sua vez, justificou este aumento como sendo o resultado de três causas possíveis: 1) muitos jovens terão encontrado um lugar no mercado de trabalho, o que, a acontecer, poderá também explicar a redução da taxa de desemprego juvenil; 2) uma menor contabilização de falsos estágios; e 3) aumento da taxa de retenção durante o governo PSD/CDS.

É expectável que quer governo, quer oposição, durantes estes debates, imputem culpas ao adversário pelas más estatísticas e recolham para si os louros dos bons números. Mas reduzir o abandono escolar não é o mesmo que aumentar a rede de autoestradas. O abandono escolar tem múltiplas raízes, desde fatores económicos, motivacionais, vocacionais, e circunstanciais. E exige políticas abrangentes que envolvam as famílias, os estudantes, as escolas, os professores e as localidades e autarquias, políticas essas cujo efeitos, obviamente, trespassam um ano letivo ou até mesmo uma legislatura.

É verdade que o abandono escolar diminuiu nos últimos dez anos e sem dúvida que foram tomadas medidas que contribuíram para esta redução, tais como a criação de mais vias vocacionais que permitiram dar outras alternativas a alunos desmotivados e com dificuldades escolares. Mas outras medidas educativas atuaram no sentido inverso, nomeadamente, nos governos PSD/CDS, o reforço das avaliações em final de ciclo e que terá aumentado as taxas de retenção. Esta estratégia não terá sido, de todo, uma boa estratégia para combater o insucesso escolar e o consequente abandono. A retenção, sendo um mecanismo penalizador, desmotiva os alunos para a aprendizagem, e motiva a desistência, criando maior vontade em abandonar o ensino, mesmo (ou talvez sobretudo) em crianças muitos jovens. Por sua vez, a simples antecipação do abandono escolar pode gerar mais insucesso escolar e tornar-se numa profecia auto realizável, isto é, o aluno ao desenvolver a expectativa, por ventura errada, de que não conseguirá ser bem sucedido acaba por efetivamente ter um mau desempenho e decidindo abandonar o ensino.

Além das medidas políticas educativas, o contexto económico-social e as políticas macroeconómicas podem influenciar o abandono escolar, contribuindo muitas vezes para estatísticas mais ou menos otimistas. A melhoria no mercado de trabalho, de que a redução do desemprego é um sinal, é uma causa plausível para justificar o ligeiro aumento na taxa de abandono escolar. Mas, assim sendo, o inverso também sentido é possível. Ou seja, quando as condições no mercado de trabalho não são as melhores, o abandono escolar precoce tenderá a diminuir. É possível então que o decréscimo na taxa de abandono escolar na última década tenha “beneficiado” da crise financeira com início em 2007-2008, da troika e das medidas de austeridade, que fizeram disparar o desemprego sobretudo entre os jovens menos qualificados.

Nos anos da troika, muitos foram os jovens que perderam o emprego e que se viram forçados a emigrar ou a regressar a casa dos pais por incapacidade de cumprir responsabilidades financeiras, tais como o pagamento de créditos e rendas. Muitos destes jovens tinham familiares e amigos ainda mais jovens que eles, em diferentes ciclos de ensino. Uma geração de crianças que cresceu com a austeridade. Que sentiu na pele, mais direta ou indiretamente os efeitos do desemprego. Muitas das crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem, sem grande simpatia pela escola, possivelmente viram na permanência na escola uma forma de combater, ou pelo menos adiar, uma vida mais difícil, e que, infelizmente conhecem bem.

O abandono escolar não é um ato que acontece do dia para a noite. Na maioria dos casos é um processo que começa antes ainda das crianças iniciarem a escolaridade obrigatória. O contexto social e económico e a experiência, ainda que indireta, da situação de desemprego entre os jovens, pode, de facto, ter funcionado como incentivo à permanência escolar e contribuído também para as boas estatísticas nos últimos anos. A taxa de abandono escolar está, assim, à mercê das condições macroeconómicas e do mercado de trabalho, o que pode dificultar a avaliação do impacto de medidas educativas que pretendem ter um papel mais estruturante na luta contra o abandono escolar.

Por último, não é demais relembrar que não é apenas o contexto macroeconómico que se altera. A juventude é uma construção social e cultural, concebida no contexto de realidades e circunstâncias económicas, sociais e politicas. Modificando-se no tempo, a juventude deve então ser encarada como um fenómeno dinâmico. E, assim sendo, não existem fórmulas estanques no combate ao insucesso e abandono escolar nem razões simples para o seu aumento. Antes de atirar culpas e recolher louros há que ter plena consciência de que, muitas vezes, os números escondem mais do que mostram.