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Expresso

Tit-for-tat natalício

Hoje muitos de nós andam nas azáfamas das compras natalícias e os dilemas são os mesmos de sempre. O que comprar para a vizinha de cima que no ano passado decidiu oferecer-nos daqueles livros para colorir que combatem o stress ou para a prima que vive no estrangeiro e que vem passar o Natal a Portugal pela primeira vez em vinte anos? E o que oferecer aos colegas de trabalho, aos patrões, à sogra, aos cunhados? Compramos lembranças apenas, algo barato só para simbolizar a época, ou perdemos a cabeça e compramos presentes mais caros?

O ato de dar tem benefícios e custos. Por um lado, retira-se prazer em dar, quer porque dar ao outro nos faz bem ao ego, quer porque ficamos felizes com a felicidade alheia. Mas dar acarreta custos: o preço a pagar, pensar no que se vai comprar, o esforço físico e o tempo que se despendem na compra. O ato de receber pode tanto trazer benefícios como custos. Em geral, gostamos de receber um presente, tanto mais quanto seja uma surpresa agradável, algo que gostamos ou que desejaríamos ter. Mas pode trazer o dissabor de ficarmos com a sensação de dívida para com o outro, que é maior quanto maior a disparidade de valor entre os presentes trocados.

As compras natalícias podem ser vistas como um jogo dito estratégico não cooperativo, no qual os diferentes jogadores (amigos, parceiros, colegas, familiares) escolhem o que comprar sem que os outros saibam das escolhas de cada um. Considere, por exemplo, dois colegas de trabalho que não nutrem grandes sentimentos um pelo outro, para além da relação laboral. Estes decidem individualmente se irão oferecer ao outro uma prenda neste Natal. Cada um tem duas opções, ou estratégias: comprar ou não uma prenda. Para simplificação, assuma que receber um presente é algo sempre positivo, que dá prazer e utilidade, e que dar ao outro acarreta somente custos, monetários ou não-monetários.

Se assumirmos que os benefícios são maiores que os custos, os dois colegas beneficiarão mais em conjunto se comprarem um presente para o outro. No entanto, é do interesse de cada um receber sem dar. E se os dois pensarem da mesma maneira, a troca de presentes entre os colegas é inexistente.

A vida, no entanto, é composta de interações repetidas. Se jogarmos este jogo com alguém com quem passamos muitos natais e que se lembra das prendas que deu e recebeu, a estratégia mais avarenta de nada dar é preterida em comparação a estratégias mais generosas, como por exemplo a chamada tit-for-tat. Neste tipo de estratégia, os jogadores decidem comprar um presente para o outro no primeiro ano e depois disso decidem em função do que o outro fez no ano anterior. Sendo assim, no segundo ano, compraríamos um presente se e só se o colega o tivesse feito no ano anterior. Obviamente, quanto menos conhecermos a pessoa para a qual estamos a comprar um presente maior o risco em oferecer algo que o outro não gosta. Em geral, a regra que se aplica é comprar algo que monetariamente seja equivalente ao que nos foi oferecido e que represente o mesmo nível de troca e amizade.

Mas as relações concretas não são somente repetidas no tempo, são também mais complexas. O jogo muda completamente de figura, e de solução de equilíbrio, se por exemplo o ato de dar fizer feliz quem dá e essa felicidade compensar os custos da compra. Neste caso, os jogadores acabarão sempre por comprar um presente para o outro mesmo que o jogo seja jogado apenas uma vez.

Há ainda aqueles que não têm paciência para jogos natalícios. Entre esses, há os que nada compram e nada desejam receber e ainda aqueles que estabelecem trocas natalícias quase de forma contratual, trocam listas de desejos e compram para outro o que o outro quer receber. Estes últimos brincam ao Natal de forma, talvez menos divertida, mas mais cooperativa e mais eficiente

Se algum conselho pretende retirar deste texto, então que compre com o coração mas não deixe a cabeça em casa. Pode sempre comprar uns presentes indiscriminados, uns vales de compra, uns livros de receitas, umas caixas de bombons. Qualquer coisa que esteja à mão de dar no caso de receber um presente que não estava à espera de receber ou se quiser iniciar ou re-iniciar uma relação de troca com alguém.

A todos os leitores, um feliz Natal.