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Expresso

Estar motivado para motivar

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Professores desmotivados, cansados e desiludidos com o sistema. Esta é a imagem geral que nos deixa o inquérito divulgado esta quinta-feira, “As preocupações e as motivações dos professores portugueses”, levado a cabo pela Fundação Manuel Leão e que recolheu opiniões de 2910 professores de 130 escolas públicas e privadas. Em mais detalhe, destacam-se algumas respostas preocupantes: cerca de um terço dos professores gostaria de deixar de lecionar e mais de metade, 57%, aponta a falta de reconhecimento profissional como a causa de maior insatisfação no trabalho, sendo que 85% considera que o Ministério da Educação não valoriza o trabalho da classe docente e 48.4% considera que o seu trabalho não é valorizado pelos alunos.

Qualquer gestor e empresário sabe que infelicidade e desmotivação no local de trabalho podem influenciar negativamente a produtividade e o desempenho individual e das equipas, que é necessário criar uma cultura organizacional que privilegie o bem-estar e motivação dos trabalhadores e que a motivação pode ser fomentada através do reconhecimento e valorização do trabalho.

Porquê negligenciar a importância de fatores motivacionais na carreira docente?

Existem algumas profissões que têm em si associada uma motivação intrínseca bastante forte e uma expectativa dos outros face a essa mesma motivação. Espera-se, por exemplo, que um professor, um bombeiro, ou um médico seja tão apaixonado pelo que faz, que tem uma capacidade enorme de dar o seu melhor seja em que condições for. As expectativas da sociedade fazem com que muitas das reivindicações e protestos da classe docente não sejam corretamente validadas. É certo que muitos professores são verdadeiramente apaixonados pela educação e pela transmissão do saber e têm em si uma imensa motivação intrínseca que permite que desempenhem as suas funções com o máximo empenho e primor, mas há limites a esta motivação, sobretudo quando existe uma série de fatores que criam desmotivação. Por um lado as condições de trabalho não dão uma resposta adequada às exigências das tarefas que, hoje em dia, trespassam muito mais do que apenas ensinar, atribuindo-se aos professores várias responsabilidades e funções extracurriculares e extremamente burocráticas. Por outro, a crescente dificuldade de imposição de regras na sala de aula que põe em causa a autoridade pedagógica e o respeito, ao que acresce muitas vezes a difícil comunicação com os encarregados de educação e a sua falta de compreensão. Juntam-se a estes factores, a instabilidade e precariedade da profissão. É caso para dizer que não há amor que resista.

A desmotivação da classe docente é contagiante

Se em qualquer profissão a desmotivação é meio caminho andado para um fraco desempenho e uma baixa produtividade, importa saber como o desempenho dos docentes é afetado e condicionado por fatores motivacionais, e em que grau. Mais, em última instância, é imprescindível saber qual o impacto da desmotivação dos professores no desempenho dos alunos. Os professores não são empregados fabris, que embalam peças em massa. Grande parte da “função de professor” consiste em saber motivar os alunos para aprenderem e absorverem novo saber. Conseguir motivar os outros sem estar motivado pode funcionar numa ou outra aula, mas certamente não traz resultados. Existem algumas experiências de laboratório na área da psicologia educacional e organizacional que mostram que professores menos motivados têm um impacto negativo ao nível do interesse e consequente aprendizagem dos alunos. Por exemplo, estudantes participantes numa experiência foram distribuídos aleatoriamente por professores que mostravam mais ou menos entusiasmo em ensinar um dado tópico. Os alunos tiverem que realizar um teste que aferia a aprendizagem da matéria lecionada, assim como responder a diversas questões sobre o professor e o nível de interesse deste e dos próprios alunos na aula. Os resultados mostraram que alunos que ficaram com um professor menos entusiasmado tiveram piores resultados no teste.

Mas o desinteresse e desmotivação dos alunos também não é inócua para a classe docente. Alunos desinteressados e desmotivados reduzem a motivação dos professores. Entra-se assim num ciclo contagiante de desinteresse e desmotivação, não permitindo que exista um ensino e uma aprendizagem felizes e profícuos. No limite, a sociedade é quem perde, porque a educação é o grande motor de uma sociedade democrática.

O inquérito traz-nos uma visão pouco otimista do ensino, o que não é certamente a visão mais desejada por pais, alunos e professores, e sobretudo no começo do ano letivo. Mas há que ressaltar que o inquérito foi realizado nos meses de Maio, Junho e Julho, ou seja, no final do ano letivo, numa altura em que o cansaço nos professores (e alunos) certamente mais se faz sentir, dando por isso uma imagem talvez mais negra do que a imagem real. Exagerados ou não, estes resultados não devem é ficar na gaveta.