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Expresso

A beleza na aprendizagem

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Com o início do ano letivo à porta acumulam-se as preocupações dos pais: as despesas com a educação, o peso das mochilas dos filhos, as más companhias, o transporte escolar, as refeições fora de casa, as notas, os professores que são muito permissivos, os professores que não ensinam como dantes, ou até os que aparecem em revistas, mais ou menos desnudados, mais ou menos atrativos.

Por mais variadas que sejam as preocupações, uma das questões mais relevantes ao nível da educação prende-se com saber o que efetivamente pode contribuir para melhorar os resultados escolares. Não é segredo algum que melhores condições em casa e na escola, melhor nutrição, professores mais dedicados e com maior capacidade em transmitir efetivamente a matéria e de motivar os alunos, contribuem positivamente para os resultados. Mas há formas e formas de motivar e de ter impacto, e umas mais polémicas que outras. É certo e sabido que as capacidades cognitivas, de liderança, pedagógicas ou de relacionamento social dos professores têm um impacto direto na eficácia do ensino, ou seja, no desempenho dos alunos a nível escolar. E será que um professor, ou uma professora, atraente é um fator de distração ou de motivação? Isto é, qual o impacto do “fator beleza” de um professor (ou de uma professora) na capacidade de aprendizagem dos alunos?

É possível, e é plausível, que a atração física dos professores possa influenciar positivamente o desempenho escolar dos alunos. Por um lado, é possível que os professores que se considerem mais atraentes julguem que os alunos tenham expectativas que estes sejam mais confiantes, tenham maior capacidade de liderança, e que até sejam mais inteligentes. Estas expectativas são razoáveis dado que com frequência atribuímos características mais positivas ao outro quanto mais atraente o achemos. Se os professores forem influenciados por expectativas dos alunos, os professores que se julguem mais atraentes podem realmente se esforçar mais, por exemplo dedicando mais tempo à preparação de aulas. Por outro lado, é possível que o fator beleza tenha um impacto direto na aprendizagem se alterar a atenção e foco dos alunos. Existem dados, por exemplo, que comprovam a existência de uma correlação positiva entre a atração física de um interlocutor e a perceção sobre a capacidade persuasiva do mesmo, sendo que quanto mais atraente for, mais atenção recebe por parte da audiência. Mais, ao que parece os indivíduos processam de forma mais precisa a informação transmitida por pessoas que consideram mais atraentes. Mas o contexto escolar é um contexto de transmissão da informação muito particular, e por isso não é certo que estes resultados sejam facilmente extrapolados para esta realidade.

É difícil, muito em particular, aferir o real impacto do “fator beleza” do professor no desempenho escolar dos alunos analisando os dados de resultados escolares. É difícil saber “o que causa o quê”: se professores mais atraentes têm ou não melhor desempenho, e se os alunos se focam ou se distraem com a beleza do professor. Ora, um estudo experimental recente, na área da psicologia comportamental, realizado com estudantes universitários de diferentes nacionalidades, tentou precisamente isolar o impacto da atração física do professor na aprendizagem.

O estudo foi conduzido com alunos de física a quem foi dada uma aula introdutória de 20 minutos através de um de sistema áudio. Juntamente com a aula foi mostrada uma fotografia do suposto(a) professor(a). Um grupo diferente de alunos classificou as fotografias classificando o professor como atraente ou não atraente. Os alunos a quem foi dada a aula foram distribuídos aleatoriamente por professores mais ou menos atraentes. Depois da aula tiveram que fazer um teste para avaliar os conhecimentos adquiridos. Durante a aula não era possível tirar notas. Depois do teste, e antes de saberem o resultado, responderam a um questionário que pretendia avaliar o desempenho do professor. Os resultados mostraram que a manipulação da “beleza” do professor teve um impacto positivo ao nível do desempenho no teste assim como na avaliação do professor.

Obviamente que deveremos ter cuidado em extrapolar estes resultados laboratoriais, até porque uma aula de 20 minutos não se compara a todo um semestre ou um ano letivo. Mas são resultados que não deixam de ser intrigantes e polémicos, se, de facto, além da tabuada, dos ditados, e das composições, a “beleza do professor” tem influência na eficácia da aprendizagem.

* Westfall, R., Milar, M., and Walsh, M. (2016). Effects of Instructor Attractiveness on learning. The Journal of General psychology. Vol. 143, no. 3, 161-171