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Expresso

Mais do que uma taça

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O Gabinete de Estudos de Marketing para o Desporto do IPAM, Instituto Português de Administração de Marketing, estimou que a presença e vitória de Portugal no Euro teriam um impacto total na economia de cerca de 610 milhões de euros. Este valor refere-se sobretudo a um estímulo na procura, englobando indicadores como as viagens de avião, a venda de jornais, a televisão paga, as apostas online, o consumo na restauração e em casa no dia dos jogos, assim como vendas de televisores de alta definição. Quanto ao impacto da vitória de Portugal no turismo, este é difícil de contabilizar, mas os economistas concordam que pode ter um efeito catalisador.

Mas mais do que os efeitos diretos e de alguma forma possíveis de contabilizar, existem potenciais retornos socias e económicos não só da vitória de Portugal, mas sobretudo do percurso da seleção neste campeonato. Há mensagens que ficam para toda uma sociedade e que podem funcionar como um mecanismo de dinamização e motivação quer a nível pessoal como profissional, tendo efeitos positivos na produtividade que não são facilmente mensuráveis. Esta seleção deixou-nos várias mensagens. Primeiro, que é possível alcançar objetivos mesmo quando os meios não são os mais favoráveis. Segundo, que o esforço, determinação e habilidade individuais são importantes, mas que o trabalho em equipa exige que se funcione em coletivo, que se maximize o potencial do agregado e não o potencial de cada um dos seus elementos em separado. Terceiro, que a sorte na vida ajuda, e por vezes muito, mas que dormir à sua sombra não nos leva a lado algum. Quarto, que uma boa dose de espetáculo ponderada com uma boa dose de precaução consegue ser eficaz. Quinto, num mundo competitivo e onde somos avaliados permanentemente há que saber digerir as criticas negativas e positivas de uma forma ponderada e racional e não fechar os braços.

O percurso e vitória no Euro serão certamente lembrados por muitos de nós durante largos anos, mas mais do que ficar na gaveta das boas recordações, esta seleção, incluindo jogadores, selecionador e equipa técnica e restante comitiva, poderá servir de exemplo e de motivação quer nas empresas, quer nas escolas. Sendo Portugal um país onde o trabalho em equipa é menor que noutras economias desenvolvidas, bons exemplos, e sobretudo vindos de dentro, são importantes. Líderes de equipa e gestores nas organizações sabem que a motivação é um fator essencial para a produtividade individual e coletiva. Não basta no entanto olhar para um grupo de trabalhadores como um conjunto homogéneo, mas ter em atenção as necessidades individuais de cada trabalhador. A complexidade do trabalho nas organizações e a competitividade nos negócios exigem que se criem as condições favoráveis para maximizar o desempenho dos trabalhadores, o que muitas vezes exige motivação para trabalhar em equipa de forma cooperativa e com satisfação na realização desse trabalho, ou seja, em todo um percurso que conduzirá a um objetivo final. Uma estratégia motivacional que crie uma motivação mais endógena e intrínseca nos trabalhadores, além das meras recompensas financeiras associadas ao desempenho, é crucial para um sucesso mais duradouro.

Ter bons exemplos, os chamados “role models”, tem-se mostrado também importante para o desempenho e motivação de crianças em idade escolar. Estudos experimentais realizados em escolas têm mostrado que quando as crianças são expostas às histórias de atletas, atores, músicos, entre outros indivíduos com sucesso, ficam mais predispostos a participar em tarefas que exigem maior esforço e têm mais resultados positivos. Esta exposição a bons exemplos mostra-se ainda mais eficaz para as crianças que em geral são menos confiantes. Mais, parece contribuir para diminuir as diferenças na propensão a competir entre raparigas e rapazes.

É difícil medir o impacto total da participação e vitória da seleção portuguesa no Euro 2016 na economia e na sociedade. Mas, mais do que medir os efeitos, devemos reconhecer que temos possibilidade de os potenciar e devemos agarrar essa oportunidade, porque o que o país tem a ganhar com isso é muito mais valioso do que uma taça tão valiosa como esta que já ganhámos.