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Expresso

Se o arrependimento matasse

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Do Brexit ao Regrexit foi um pulinho. Por terras de Sua Majestade circula uma petição para a realização de um segundo referendo para a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia. Esta petição conta já com 4 milhões de assinantes, sendo que mais de um milhão que votou a favor do Brexit mostra arrependimento. Há quem se sinta arrependido porque votou achando que o seu voto seria inconsequente, servindo este apenas como uma forma de protesto. Há quem também ache hoje que as consequências da saída da União Europeia são piores do que as que acreditou poderem ser no dia do referendo. É curioso verificar que muitos britânicos procuraram através do motor de busca do Google mais informação sobre a União Europeia nas horas seguintes aos resultados serem revelados.

Apesar de muitas vezes termos o hábito de dizer que nunca nos arrependemos de nada, viver a vida sem cometer erros ou sem qualquer sentimento de arrependimento, é raro, e provavelmente até encerra em si alguma patologia. Dado que grande parte do nosso tempo é passado a tomar decisões, é quase certo que algumas destas decisões acabem por ficar aquém das expectativas, trazendo-nos menos bem-estar do que o previsto ou alguma consequência mais negativa, o que poderá gerar arrependimento. E não nos arrependemos só do que fazemos, como por vezes nos arrependemos do que não fazemos, ou seja, o chamado arrependimento por omissão.

O arrependimento poder causar dor física e psicológica e encetar em si dilemas morais, mas é uma emoção racional que permite, muitas vezes, melhorar o processo de decisão. O arrependimento envolve não só uma componente emocional, ou seja as sensações menos boas que sentimos aquando tomamos uma decisão menos certa, como também cognitiva, que está relacionada com a antecipação do sentimento de arrependimento. Por exemplo, no processo de decisão de compra de um produto financeiro, como um plano poupança reforma, pensamos nos retornos que este produto nos poderá trazer, como também nos potenciais custos mensais que podem ser difíceis de suportar caso nos encontremos numa situação de desemprego. A antecipação do sentimento de arrependimento poderá servir para ponderar a tomada de decisão, constituindo-se assim como um mecanismo regulador que otimiza as decisões.

Assim como a antecipação de arrependimento pode ser positiva, sobretudo para aqueles que tendem a tomar decisões de forma impulsiva, menos informada, ou como protesto ou reação, como pareceu ser o caso de muitos britânicos que votaram a favor do Brexit, antecipar exageradamente uma possível sensação de arrependimento pode causar enviesamentos na tomada de decisões. Imagine, por exemplo, que está a pensar em comprar ações de uma empresa que apresenta bom desempenho e espera uma expansão dos seus negócios. O preço destas ações é relativamente bom, contudo decide esperar, com receio que o preço baixe e que tenha feito um mau negócio. O medo de se arrepender pode fazer com que adie dia após dia a compra das ações, até que um dia o preço sobe e decide desistir totalmente deste investimento. Neste caso, a aversão ao arrependimento impediu a realização de, ao menos, algum lucro.

No caso do Brexit, ao que parece, se os arrependidos voltassem a votar, o Reino Unido não sairia da União Europeia. Mas também não é claro que todos os que votaram a favor da permanência, manteriam o seu voto. Se muitos acreditassem que o resultado não se modificaria num segundo referendo, até poderiam votar a favor da saída, apenas porque retirariam alguma utilidade em pertencer ao grupo “vencedor”. Em geral, os indivíduos que alterariam o seu voto seriam aqueles que percecionassem o seu voto como “perdedor”. Com efeito, em várias experiências laboratoriais, onde os participantes puderam escolher entre um ganho certo, de montante razoável, ou a participação numa lotaria que lhes permitia ganhar muito mais ou nada, com igual probabilidade, constatou-se que os participantes que escolheram a lotaria e que tiveram pouca sorte, ganhando zero, mostraram arrependimento, e, numa segunda escolha, muitos escolheram o montante fixo.

Se um referendo é um ato democrático que dá voz a todos aceitando as preferências da maioria, a sua repetição pode ser um ato de grande coragem democrática e de defesa dos reais interesses dos cidadãos. E não seria algo inédito. A Dinamarca assim o fez quando o “Não” venceu com 50.7% dos votos o referendo a 2 de Junho de 1992 ao Tratado de Maastricht. Um ano mais tarde, após negociações que permitiram incluir 4 cláusulas de exclusão a partes do tratado, a Dinamarca votou sim num novo referendo.

Qualquer processo de decisão está envolto em emoções e racionalidade. Há quem decida com a cabeça e muitos há que decidem exclusivamente com o coração. É pena é que de entre os atuais arrependidos muitos não tenham tido a capacidade de antecipar o seu próprio arrependimento na altura de votar.