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Os olhos também comem

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Nesta quinta-feira o Parlamento debateu os projetos de lei do Bloco de Esquerda e do Partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) que visam a inclusão de uma opção vegetariana nas escolas e universidades, hospitais, prisões, lares e demais serviços da administração pública. Este projeto de lei tem várias motivações e propósitos.

Primeiro, dar resposta à diversidade de preferências e estilos de vida alimentares. São já vários milhares de crianças, jovens e adultos que seguem uma dieta vegetariana ou vegan. As cantinas públicas devem, por isso, acomodar esta diversidade dado que atualmente quem opta por esta dieta vê-se obrigado a levar comida de casa ou a restringir-se ao menu existente, acabando neste último caso por não consumir a proteína animal, o que implica uma refeição deficitária e muito pouco equilibrada.

Segundo, há que combater o estigma e discriminação que alguns vegetarianos e vegans possam sentir, nomeadamente uma incompreensão por parte dos colegas, que muitas vezes consideram estas opções como uma “esquisitice” alimentar.

Terceiro, sobretudo para o PAN, existem razões ambientais e éticas, nomeadamente um respeito pleno pelos direitos dos animais que entrem na cadeia alimentar, e que, para esse fim, são reproduzidos, criados e mortos em condições muitas vezes deploráveis.

Por último, mas não menos relevante, há ainda a considerar as questões de saúde e pedagogia. Ao diversificar os menus incluindo opções vegetarianas e vegans que não só não incluem proteína animal (com efeitos, ao que parece, não tão benéficos assim para a saúde), como em geral são mais ricas em vegetais e leguminosas, está a permitir-se que os indivíduos sejam expostos a opções às quais poderiam ficar privados se deixados exclusivamente ao seu livre arbítrio. Assim, este contacto direto e exposição visual podem vir a ter uma consequência nas preferências e consequentes escolhas dos indivíduos. No fundo, a inclusão destes menus pode contribuir para escolhas mais saudáveis nas cantinas, seja quem escolhe vegetariano, vegan, ou tenha qualquer outro tipo de dieta. Não se trata de obrigar a escolher estes menus, mas a sua presença pode ser suficiente para criar efeitos de contágio ou spillover.

Em relação a este último ponto, existem vários estudos que mostram evidência estatística a comprovar a eficácia de pequenas intervenções comportamentais e experimentais na seleção de produtos alimentares. Considerem-se por exemplo algumas experiências feitas por investigadores residentes e visitantes do “Food and Brand Lab” da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Uma destas experiências foi conduzida no Banco Alimentar da Igreja Católica da Imaculada Conceição em Ithaca, no estado de Nova Iorque. Neste Banco Alimentar, os beneficiários podem escolher o seu carrinho de compras de uma forma livre, escolhendo muitas vezes produtos menos saudáveis. A intenção da experiência foi perceber se se poderiam alterar as escolhas dos indivíduos alternado apenas a localização dos produtos. Foram então observados os comportamentos de 443 beneficiários durante 4 dias. Os investigadores alteraram a localização de barras proteicas, colocando-as mais facilmente no campo de visão dos consumidores. Os resultados mostraram que houve um aumento de cerca de 46% na seleção destas barras. Como o carrinho de compras é limitado, esta escolha ressoltou da substituição de outros produtos, nomeadamente bolos e chocolates, resultando portanto numa alimentação mais saudável.

Alterar as escolhas alimentares nas escolas com uma pequena operação cosmética

O “Food and Brand Lab” tem também conduzido este tipo de experiências em escolas no estado de Nova Iorque. Por exemplo, em duas escolas secundárias alterou-se a disposição dos alimentos nas cantinas. Este “makeover” ou pequena operação de cosmética levou a que mais 13% dos estudantes escolhessem fruta e mais 23% escolhessem vegetais. Numa outra experiência, analisou-se a escolha da sobremesa de 208 crianças dos 8 aos 11 anos durante 5 dias. No primeiro dia as crianças tiveram de escolher entre uma maçã e um biscoito, sendo esta a condição de base ou de controlo. Nos três dias seguintes os autores implementaram três condições diferentes. Num dos dias, nos biscoitos foi colocado um autocolante com uma personagem popular de uma série infantil, o Elmo (Simão na versão portuguesa da rua Sésamo). Num outro dia, este mesmo autocolante foi apenas colocado nas maçãs, e, num terceiro dia, foi colocado um autocolante de uma personagem não conhecida, mas, mais uma vez, só nas maçãs. Os resultados mostraram que a escolha por maçãs, quando estas tinham o autocolante do Elmo, duplicou em comparação à condição de controlo. Mas o Elmo no biscoito foi irrelevante, não alterando o comportamento das crianças quanto à escolha deste item, assim como o autocolante de uma personagem desconhecida colado nas maçãs também não teve qualquer efeito.

Estes estudos mostram que pequenas intervenções podem ter grandes efeitos. Deste modo, caso seja introduzido um menu vegetariano nas cantinas públicas há que ter a possível magnitude dos seus efeitos em consideração aquando da discussão dos custos e benefícios desta medida. Os benefícios podem ser bem maiores do que esperados. Porque, afinal, os olhos também comem.