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Expresso

Wifi: a mesada do seculo XXI

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Esta semana circulou no Facebook uma nota de um pai, de nome Sérgio Baptista, à sua filha Catarina, e que aqui se reproduz mediante a autorização do autor.

DR

A nota não é mais do que um esquema de incentivo para que a Catarina faça algumas tarefas domésticas que, como para a maioria das crianças, não são mais do que uma grande maçada e perda de tempo, e facilmente descuradas. Assim, em troca das tarefas feitas, a Catarina recebe a password do wifi, que lhe permite aceder à Internet. É verdade que os incentivos nem sempre funcionam, mas este incentivo em particular parece ter os ingredientes certos para que tenha sucesso.

No entanto, se perguntarmos a um economista qual a compensação mais consensual e eficaz num esquema de incentivos, a resposta será provavelmente “o dinheiro”. O dinheiro é o meio usado para a aquisição de bens e serviços que permitem satisfazer necessidades e preferências diversas. Porque as preferências dos indivíduos são em geral difíceis de identificar, o dinheiro é uma escolha segura para quem incentiva, uma vez que uma compensação monetária tem imediata utilidade para quem a recebe. E a verdade é que o dinheiro tem sido largamente usado em vários esquemas de incentivos, quer no meio laboral por forma a garantir níveis de produtividade, quer em casa, na educação dos filhos, usando a mesada como instrumento de pagamento.

Como forma de educar e consciencializar as crianças, os pais costumam dar dinheiro aos filhos, a chamada mesada ou semanada, conforme a sua periodicidade. Este dinheiro é o primeiro “salário” que as crianças e os jovens em geral recebem e serve também para que aprendam o valor do dinheiro, ensinando-os a controlar os seus gastos e a planear como podem vir a adquirir um bem que desejam. Além de ter um papel importante na educação financeira dos filhos, a mesada pode servir também como incentivo para o alcance de metas na escola ou na realização de tarefas domésticas, se o seu pagamento e/ou o seu montante depender do desempenho das crianças.

Mas o dinheiro não faz milagres

Existem vários estudos no âmbito da economia experimental que testam o poder de incentivos monetários e não-monetários na alteração de comportamentos em crianças e jovens. Uma equipa de investigadores da Universidade de Chicago e de San Diego, entre os quais os Professores John List, Steve Levitt e Sally Sadoff tem conduzido experiências num grupo de escolas consideradas problemáticas em Chicago. Numa das experiências foi testado o impacto da atribuição de compensações monetárias no desempenho dos alunos em exames. Os alunos selecionados aleatoriamente para a experiência só no dia do exame é que foram informados que poderiam ganhar uma compensação monetária se os seus resultados atingissem um certo nível. A alguns estudantes o prémio seria entregue imediatamente enquanto a outros o prémio levaria mais tempo a ser entregue. A existência de um prémio fez melhorar os resultados, mas esta melhoria foi apenas significativa quando a compensação foi entregue no imediato. Mais, o incentivo teve um maior efeito quando o prémio estava à vista dos alunos.

Numa outra experiência realizada foram atribuídos incentivos monetários para a concretização de várias metas relacionadas com o desempenho escolar e a assiduidade. Os incentivos consistiram em pagamentos mensais garantidos de 50 dólares ou a participação num sorteio em que os alunos tinham 10% de chances de ganhar 500 dólares mensais, isto é, ganhar dez vezes mais mas não garantidamente.

Os alunos foram acompanhados e observados durante 5 anos. Ambos os incentivos tiveram um impacto muito reduzido e apenas significativo nos estudantes com mais dificuldades escolares. Mais, os resultados não perduraram no tempo e as diferenças entre os alunos que receberam e os que não receberam incentivos dissipou-se ao fim de dois anos.

Quando os incentivos têm um efeito ricochete

Incentivar as crianças e jovens com prémios e remunerações tanto pode ter um efeito benéfico como um efeito perverso. E são várias as razões desta dualidade. Primeiro, os incentivos podem destruir a motivação intrínseca para o desempenho de uma tarefa, o chamado efeito de crowding out. Por exemplo, as crianças podem querer desempenhar algumas tarefas domésticas porque sentem, genuinamente, satisfação em ajudar os pais. Essa motivação intrínseca pode ser então destruída se

houver lugar a incentivos extrínsecos, e tanto mais quanto se usarem incentivos monetários. Segundo, a aplicação de incentivos pode fazer com que os indivíduos se sintam controlados, prejudicando assim o seu desempenho nas tarefas para as quais o incentivo foi aplicado. Por último, os incentivos podem ter um efeito negativo nos indivíduos que não os recebem. Por exemplo, considere-se a atribuição de um prémio que motive a leitura. Este tipo de incentivo tem não só um efeito direto em quem o recebe,

como também pode gerar efeitos indiretos, chamados de spillover, nas crianças que não recebem o prémio. Por um lado, por mero efeito de contágio, observar os colegas a lerem mais pode motivar a leitura entre as crianças que não recebam o incentivo. Mas, por outro lado, se estas souberem que um incentivo foi pago podem ficar desmotivadas, e sobretudo se considerarem que a atribuição do prémio sinaliza a dificuldade da tarefa. Mais, podem também sentir que é injusto não receberem o incentivo. Em experiências nas escolas acima referidas, a aplicação de incentivos para a alteração dos hábitos alimentares das crianças, como por exemplo privilegiar a ingestão de fruta em vez de bolos, tem um efeito positivo para quem é diretamente incentivado. As crianças que não o são reagem negativamente escolhendo mais bolos se souberem que outras são incentivadas.

A password do wifi como incentivo

Incentivos não monetários têm mostrado ser mais eficazes em alguns contextos, sobretudo se existir a possibilidade de crowding out da motivação intrínseca. Por exemplo, por forma a incentivar a doação de sangue, providenciar uma pequena oferta simbólica funciona melhor que o pagamento em dinheiro, dado que este pode dissuadir quem doa se a motivação subjacente for um mero prazer altruísta por uma “boa causa”. Mais, várias são as empresas que optam por dar prémios de produtividade não monetários, como por exemplo uma viagem. Dado que um prémio em dinheiro pode ser gasto em qualquer bem, é bem possível que o trabalhador o esqueça, e portanto a bonificação não ficar associada a algo especial, perdendo-se assim o seu efeito motivador. O mesmo poderá acontecer se o pai da Catarina aumentar a mesada em função das tarefas domésticas. Se o dinheiro não for suficientemente saliente e pago de forma continuada, a probabilidade de a Catarina procrastinar na realização das tarefas é alta. É por isso que alterar a password diariamente é ideal: porque cria um incentivo instantâneo e consegue manter a eficácia do incentivo sempre ao mesmo nível, não afetando os custos para os pais.

Quando discutimos a aplicação de incentivos temos de ter em conta que os efeitos destes dependem de como são desenhados e da forma como são atribuídos (monetários e não monetários) e como interagem com a motivação intrínseca dos indivíduos. Os incentivos em geral têm impacto, só que por vezes não o impacto que se espera.