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Expresso

A inveja dói e destrói

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“A inveja é filha do orgulho, autora do homicídio e da vingança, o início das sedições secretas, a perpétua atormentadora da virtude. A inveja é a imunda lama da alma; um veneno, um azougue que consome a carne e seca a medula dos ossos.” – Sócrates.

A (não) história da suposta ilegalidade relacionada com a bolsa de doutoramento do Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, encheu algumas páginas de jornais esta semana, dando protagonismo ao que parece ser mais uma cena de maus fígados e inveja.

À semelhança do Ministro, muitos dos bolseiros da FCT, por diversas circunstâncias, alteram as condições do doutoramento ou pós-doutoramento, como, por exemplo, a universidade de filiação, a supervisão e orientação, e as condições subjacentes à eventual parte curricular. A FCT, em geral, e para bem dos bolseiros, adia alguns pagamentos que serão devolvidos caso não existam recibos ou outros documentos que comprovem a utilização do dinheiro para os fins a que estava destinado.

Esta não história vem lembrar-nos que os seres humanos lutam constantemente pelos recursos disponíveis, nomeadamente por poder e dinheiro. E se um indivíduo consegue alcançar mais recursos que outro, pode esse facto induzir cobiça e inveja. Enquanto a cobiça consiste em desejar o que não nos pertence, a inveja implica querer que o outro não possua algo que desejaríamos ter. É uma emoção desagradável e socialmente indesejável, inerente à condição humana que surge, muitas vezes, quando uma pessoa sente que a sua vida se compara desfavoravelmente às vidas de outros. É muitas vezes acompanhada por sentimentos de inferioridade, por rancor, ressentimentos e má vontade para com a pessoa invejada. E a inveja dói.

Uma estudo científico, da autoria de neurocientistas japoneses, publicado na revista americana Science, mostra que a inveja é processada num lugar específico no cérebro, nomeadamente na região do córtex onde também se processa a dor física. Neste estudo, 19 voluntários, dez homens e nove mulheres, na faixa etária dos vinte anos, submeteram-se a ressonâncias magnéticas ao mesmo tempo que foram induzidos a imaginar um cenário que envolvia outros três indivíduos, sendo dois deles hipoteticamente mais inteligentes e capazes. Esta comparação gerou inveja sobretudo quando os indivíduos se comparavam com outros mais semelhantes a eles, nomeadamente da mesma idade, género e profissão. A inveja é um sentimento gerado pela sensação de inferioridade.

Para além de identificar o processamento da inveja no cérebro, os autores identificaram também a emoção a que se dá o nome alemão de shadenfreude, que consiste na sensação de prazer que o invejoso tem ao presenciar o infortúnio alheio, este sentimento é processado no cérebro no corpo estriado ventral, exatamente onde se processam em geral as sensações de prazer.

Existem possíveis razões evolucionistas para a inveja. A sobrevivência do mais forte depende do sucesso na seleção sexual (termo Darwiniano) do melhor parceiro ou parceira. Dado que esta conquista está correlacionada com o sucesso a nível profissional, invejar o sucesso alheio pode funcionar como um catalisador de produtividade, a chamada inveja criativa. No entanto, num mundo competitivo a acumulação absoluta de recursos não é suficiente, tendo que se garantir, infelizmente e na maioria das vezes, que se é melhor que o outro. Assim sendo, a inveja pode ser bastante destrutiva.

Algumas experiências de laboratório na área da economia experimental mostram claramente a ineficiência e a destruição de bem-estar motivadas pela comparação dos recursos materiais entre pares. Por exemplo, os indivíduos são capazes de pagar para reduzir os ganhos dos outros indivíduos na experiência se estes ganhos forem superiores aos seus. Este comportamento destrutivo de eficiência e bem-estar pode explicar, em parte, uma preferência dos empregadores em implementar uma maior igualdade, quer salarial, quer na progressão na carreira, por forma a evitar possíveis conflitos e comportamentos rancorosos entre trabalhadores. A inveja, deste modo, pode ser um sentimento de entrave à meritocracia.

Pouco mérito tem quem inveja. Mas a inveja é tão velha quanto a humanidade e é utópico acreditar que não invejar é possível. No entanto seria desejável dotar os indivíduos em idade escolar com as ferramentas emocionais necessárias para lidar com a competição e inerentes frustrações. Lidar com a sua própria dor sem que para isso seja necessário desfrutar do prazer em causar dor alheia. Ao Ministro da Educação, e visado nesta não história, fica a sugestão.

Takahashi H, Kato M, Matsuura M, Mobbs D, Suhara T, Okubo Y (2009). When your gain is my pain and your pain is my gain: neural correlates of envy and schadenfreude. Sience. Vol. 323. pp. 937-939