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Expresso

O chegar-se à frente: o dilema (moral) do voluntário

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No passado domingo o mundo despertou com uma grande reportagem jornalística, envolvendo quase 400 jornalistas e 80 países, que revelou a maior fuga de informação registada até hoje. Cerca de 11.5 milhões de documentos da Mossack Fonseca, uma empresa de advogados sediada no Panamá, foram entregues, encriptados, por uma pessoa anónima ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, o qual, por sua vez, partilhou a informação com o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação. A publicação desta informação deu a conhecer aos cidadãos a forma como várias individualidades, ricas e poderosas, usam os serviços de um escritório de advocacia para evitar que a sua riqueza, desde a mais limpa à mais suja, seja tributada, “escondendo-a” em paraísos fiscais offshore. Esta fuga de informação destaca-se pela dimensão. São cerca de 2.6 terabytes de dados abrangendo informações que reportam desde o início da década de 70 a 2016. No futuro próximo, resta saber qual a real dimensão do problema que estes dados revelam. Quantas e quais histórias sairão nos meios de comunicação social e que impacto terão. Até agora, o escândalo já levou à demissão do primeiro-ministro da Islândia e de Juan Pedro Damiani, um membro do Comité de Ética da UEFA. Mas a procissão dos Panamá Papers ainda vai no adro.

Recorde-se outras grandes fugas de informação, a título exemplificativo, a protagonizada por Daniel Ellsberg, um ativista e antigo analista militar que divulgou, ao New York Times, os Pentagon Papers, que mostraram ao público que a guerra do Vietname tinha uma dimensão bem maior do que o governo Americano fazia crer. Outra fuga de informação, que continua, até hoje, a gerar novas histórias, foi a que partiu de um quarto de hotel em Hong-Kong pelas mãos do especialista em tecnologia e ex-funcionário da CIA, Edward Snowden. Os documentos da National Security Agency que ele e os jornalistas subsequentes revelaram, deixaram a nu o esquema de espionagem (à escala global) montado pelos Estados Unidos para aceder a dados que permitem reconstruir narrativas pessoais através de redes de telecomunicações, informando-nos do quão longe um governo, ou uma qualquer grande empresa, pode chegar na intromissão da nossa vida privada.

Qual o incentivo para dar com a boca no trombone, e muitas vezes trocar uma vida confortável por uma de fugitivo?

Edward Snowden é um exemplo, entre poucos, que trocaram uma vida confortável, no seu caso, no Havaí, com um salário bruto anual de 200 mil dólares, por uma vida de refugiado, no seu caso, em Moscovo, onde enfrenta frequentemente ameaças de morte. Quais as intenções para o fazer? Usando as suas próprias palavras, “a minha motivação é informar o público do que fizeram em seu nome”. Mas esta motivação estoica, que também está patente em denúncias anónimas, não consegue ser explicada por uma teoria económica tradicional quando esta assume que os indivíduos têm apenas motivações estritamente económicas e pretendem maximizar apenas o seu próprio bem-estar. Claramente, esta não é a motivação dos

denunciantes, anónimos ou não. O sentimento de equidade e justiça e o sentido de dever social é uma característica que se evidencia nos denunciantes.

Mas denunciar um crime, uma fraude, ou qualquer outro comportamento menos próprio levado a cabo por um indivíduo ou corporações e empresas, enceta em sim um dilema moral. Se por um lado há um sentido de dever perante o que é considerado pelo próprio como justo, por outro há um sentido de dever de lealdade do denunciante para com o denunciado. Enquanto as normas de equidade normalmente exigem que as pessoas denunciem e punam comportamentos menos éticos, as normas de fidelidade e lealdade, mesmo em abstrato, orientam para comportamentos que evitem a traição, o que muitas das vezes significa um fechar de olhos e um consentimento através do silêncio.

Um estudo experimental publicado no Journal of Experimental Social Psychology em 2013 mostrou que existe uma correlação entre a denúncia de comportamentos menos éticos e a predisposição para valorizar justiça social acima da lealdade. Mais, o estudo demonstra também que é possível potenciar denúncias através da alteração das preferências e predisposição para fatores justiça-equidade. Por exemplo, indivíduos expostos a palavras e frases relacionadas com justiça e equidade ficam mais propensos a denunciar situações menos éticas.

E porque não há ainda mais casos de fuga de informação? Certamente a Mossack não é caso único nem, esperemos, o último

Hoje em dia existem algumas empresas e corporações que encorajam a denúncia de comportamentos menos éticos em vários níveis hierárquicos, mas, mesmo assim, poucas são as denúncias. Por um lado, existe o medo de retaliação e as questões de lealdade para com o(s) denunciado(s), mas, por o outro, existe um dilema que pode ser explicado pela teoria de jogos, e que dá pelo nome de dilema do voluntário.

Considere-se uma equipa de trabalho com um supervisor. Os vários trabalhadores são conhecedores de atividades menos lícitas do supervisor, atividades estas que têm um impacto negativo na produtividade da equipa. A denúncia destas atividades traz benefícios para toda a equipa, mas possíveis custos para quem denuncia. Por exemplo, numa tarefa futura, os denunciantes poderão ser preteridos por terem revelado falta de lealdade. Todos os trabalhadores são também conscientes de que basta um para fazer a diferença, ou seja, que é suficiente que um trabalhador denuncie para que todos ganhem. E é aqui que está o dilema. Quanto mais trabalhadores existirem na equipa conhecedores das atividades ilícitas do supervisor, menor será a probabilidade de um trabalhador “se chegar à frente” e denunciar, porque espera que outro qualquer o faça. Sendo assim, se existir a noção de que a informação secreta de que se dispõe não está acessível a outros possíveis denunciantes, maior será a probabilidade que a informação seja revelada.

Ainda sobre lealdade e justiça

Por último, uma breve referência às detenções na Polícia Judiciária feitas nesta terça-feira. Entre outros, foram detidos um inspetor-chefe e um coordenador reformado por suspeitas de corrupção, no âmbito de uma investigação da própria PJ iniciada em 2013. Na operação participaram inspetores de diferentes unidades, nomeadamente da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes, onde trabalharam dois dos detidos. Não deve ter sido nada fácil para estes investigadores enfrentar o conflito entre justiça e lealdade e no fim denunciar colegas e possíveis amigos.

Se quisermos uma sociedade mais justa, com informação mais livre e aberta, teremos cada vez mais de reconhecer o esforço e minimizar os custos de quem põe em risco o seu emprego, a sua liberdade, e até a própria vida, quando denuncia atividades ilícitas e imorais que nos roubam, a todos, bem-estar económico e social. Não sei se devem ser criados incentivos positivos para que valores como a equidade falem mais alto que a lealdade, já que viver num ambiente onde exista constante desconfiança entre colegas também não será desejável. Mas temo que erguer estátuas, como a erguida por ativistas em Brooklyn com o busto de Snowden, retirada depois pelas autoridades, por muito valor simbólico que tenha, não seja incentivo suficiente para resolver o dilema do voluntário.

Waytz, A., Dugan, J., Young, L. (2013). The whistleblower's dilemma and the fairness-loyalty tradeoff. Journal of Experimental Social Psychology, Vol. 49, Issue 6, pp 951-1216