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Expresso

Menos secretismo salarial, mais eficiência e igualdade

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Se há assuntos tabu, perguntar aos colegas de trabalho, amigos e conhecidos o quanto ganham, é um deles. Em geral, as pessoas não se sentem confortáveis em revelar quanto auferem e, em muitas empresas, a informação salarial é mantida em segredo. Qual o objetivo deste secretismo? Dizem que serve para manter a paz no local de trabalho. No entanto, na maioria das vezes, é uma paz podre. E traz custos para as empresas e gera menos satisfação entre os trabalhadores.

Menos secretismo para um mercado de trabalho mais eficiente

Teoricamente, os economistas defendem a transparência salarial para o funcionamento eficiente do mercado de trabalho. A informação salarial pública é crucial para garantir que a produtividade marginal do trabalho seja igual ao seu custo marginal, ou seja, que os trabalhadores conheçam perfeitamente as condições de trabalho atuais e potenciais, quer na empresa onde estão, quer em locais de trabalho alternativos, e possam escolher de uma forma racional o emprego que melhores condições oferece em relação aos custos. A transparência salarial coloca, assim, pressão sobre os empregadores para oferecerem condições de trabalho mais atrativas e competitivas. Mas se muitas vezes nem sequer sabemos o que os nossos colegas ganham, muito menos sabemos quais são os salários noutras empresas.

É certo que sabermos o salário dos nossos colegas e superiores poderá criar desmotivação e insatisfação no trabalho, sobretudo se ganharmos menos. Mas não é totalmente claro que assim seja. Por um lado, o pagamento de salários mais elevados para uma mesma função poderá criar a sensação de que há espaço para progressão salarial no local de trabalho e isso funcionar como um incentivo. Por outro lado, vários estudos revelam que os trabalhadores em geral subestimam o que ganham, achando que na maioria das vezes ganham menos que os colegas. Interessantes são também os resultados de um inquérito realizado em 2015 pela empresa Payscale a 71 000 trabalhadores, que revelam que a maioria dos trabalhadores acha que o seu salário está abaixo da média do mercado. Mais especificamente, cerca de 80% dos trabalhadores com um salário acima da média de mercado e 64% dos que auferem um salário igual à média de mercado consideram que ganham menos. Sendo assim, a falta de transparência salarial poderá causar mais desmotivação e insatisfação, e não o contrário.

Mais, se na realidade o trabalhador, numa mesma função, receber menos que os seus colegas, isto poderá ser um sinal que este trabalhador não é o mais indicado para tal posição, podendo a empresa realocá-lo para o desempenho de outras funções onde o trabalhador possa potenciar as suas capacidades. Ou ser o próprio trabalhador a procurar um novo emprego que melhor se ajuste aos seus interesses e capacidades. A transparência salarial, ao revelar desigualdades, poderá, no limite, revelar ineficiências que poderão ser corrigidas.

Maior transparência salarial onde teoricamente seria menos esperada

Apesar do setor privado ser o setor que proclama a maior eficiência, é curioso verificar que a transparência salarial é uma característica do setor público. Por norma, membros do Governo e funcionários públicos em geral, sabem quanto ganham os colegas, informação que aliás é pública e está disponível a qualquer cidadão. Mais, as empresas públicas são obrigadas a comunicar os salários dos seus executivos. E em muitas empresas privadas, sobretudo nas profissões de topo, esta informação é também pública.

A (não) transparência pode criar mais (des)igualdade salarial

A transparência salarial na gestão de topo, nomeadamente a informação pública sobre as remunerações dos CEOs, associada à competição por talentos justifica, de certa forma, o aumento e a maior paridade salarial dos executivos. No entanto, não é evidente que o efeito seja o mesmo em todas as hierarquias profissionais e nos diferentes setores, ou seja, não é claro que uma maior transparência salarial resulte em maiores salários para todos as profissões. Mas é verdade que uma maior transparência permite criar mais igualdade entre trabalhadores do mesmo grupo profissional, contribuindo também para uma diminuição da diferença salarial entre géneros. Mais, poderá restringir a disparidade de rendimentos na economia, sobretudo se considerarmos, por exemplo, que a transparência ao nível da remuneração dos gestores de topo, associada ao receio de indignação dos trabalhadores, limita de certa forma o pagamento de valores ainda mais exorbitantes.

E porque é que não existe mais transparência salarial?

Primeiro, há que não esquecer que para as empresas os salários são um custo. Manter o secretismo salarial permite mais facilmente a discrição na atribuição de bónus e outros benefícios, limita aumentos salariais de uma forma transversal e mantém uma paz aparente entre trabalhadores. Segundo, mas menos plausível, é o facto de algumas empresas acharem que a sua política salarial faz parte da estratégia empresarial e que o secretismo lhes dá assim uma vantagem competitiva. Por último, e é esta habitualmente a justificação oficial, as empresas proclamam estar a proteger a privacidade dos trabalhadores, sendo estes que, desde logo, se opõem à divulgação dos salários.

Do tabu à geração Social Media

É verdade que, para muitos de nós, revelar o quanto ganhamos é ainda tabu. Mas cada vez menos. A “geração twitter e Facebook” tem uma atitude muito mais aberta no que respeita à partilha de informação pessoal comparativamente a gerações anteriores. Esta nova geração busca mais justiça e igualdade e preocupa-se menos com a vergonha de ganhar menos, sobretudo quando a responsabilidade do valor da sua remuneração pode ser atribuído a uma crise económica, aos mercados e aos decisores políticos. Mais, numa sociedade onde cada vez existem menos empregos para a vida e a competitividade é o motor de funcionamento do mercado de trabalho, os trabalhadores percebem a importância de uma maior transparência salarial. Daí o sucesso de sites de busca de emprego como o glassdoor.com, site norte-americano lançado em 2008. A empresa glassdoor desenvolveu um modelo de partilha de informação baseado na reciprocidade “give-to-get”, segundo a qual para que certa informação seja disponibilizada aos utilizadores é requerido que estes partilhem, anonimamente, opiniões sobre os seus locais de trabalho, nomeadamente informação sobre a sua remuneração.

Os trabalhadores começam a perceber que informação é poder e será interessante analisar as respostas empresariais. É verdade que maior transparência salarial acarreta riscos para os negócios mas também permite que o mercado de trabalho funcione de forma mais eficiente e, muito provavelmente, com maior igualdade.