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O poder corrompe ou atrai quem mais se deixa corromper?

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É rara a semana que não sejamos informados ou relembrados de escândalos envolvendo políticos, agentes públicos, e fornecedores do estado. Ou então envolvendo a banca e banqueiros e dirigentes desportivos. Esta semana, e à semelhança de tantas outras, foi prolífera em notícias sobre casos de corrupção e possíveis condutas pouco éticas. Sem uma ordem específica, segue a lista dos acontecimentos.

Primeiro, destaco a detenção de Manuel Damásio, na passada quinta-feira, por suspeita da prática de crimes de branqueamento de capitais e tráfico de influências ficando o ex-dirigente do Benfica com termo de identidade e residência.

Segundo, ontem fomos informados da condenação a mais dois anos de prisão efetiva de Manuel Godinho, por ter pago 2.500 euros a um vigilante da natureza para evitar a fiscalização de uma extração ilegal de areias na "Quinta dos Ananases", de que é proprietário. Relembre-se que Manuel Godinho foi condenado a 17 anos e meio no processo Face Oculta e a 2 anos e 3 meses num outro processo de corrupção.

Terceiro, ficámos a saber que Alberto João Jardim, o antigo presidente do Governo Regional da Madeira, e o vice-Presidente, João Cunha e Silva serão ouvidos como arguidos no processo Cuba Livre. Ambos respondem por prevaricação com dolo, abuso de poder e violação das normas orçamentais.

Quarto, destaco a alegada gestão ruinosa, corrupta e fraudulenta de Luís Filipe Menezes na Câmara de Gaia, que presidiu 16 anos. Recordemos, por exemplo, a entrega de infraestruturas de saneamento das Águas de Gaia à Sociedade SIMDOURO, transação superior a 30 milhões de euros e que foi registada duas vezes no espaço de um ano. No inquérito que está a decorrer no DIAP do Porto, ao que parece, as autoridades encontraram cerca 5 milhões de euros em património pessoal, e a Judiciária investiga os crimes de gestão danosa, corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Também relacionado com este processo estão os contratos assinados pela Câmara de Gaia com a extinta empresa municipal Gaianima, que tem 4.4 milhões de euros de défice e que pode levar o antigo futebolista João Pinto, e ex- administrador, a ser constituído arguido, assim como os ex-administradores Angelino Ferreira (antigo administrador da SAD do FC porto) e Ricardo Almeida, deputado do PSD.

Por último, o caso diferente e que nada abona a favor da integridade ética dos nossos políticos, relacionado com o novo cargo da ex-ministra Maria Luís de Albuquerque, que aceitou ser Administradora não executiva da Arrow Global, empresa que esteve ligada à gestão de ativos do Banif. Ao que parece, e como adiantou o jornal Expresso, as empresas Gesphone e Whitestear, da Arrow Global, poderão ter recebido benefícios fiscais num total de 381.7 mil euros de 2012 a 2014, o que faz com que o novo cargo da ex-ministra viole a lei da incompatibilidade. Verdade seja dita, violando a lei ou não, parece-me pouco ético que a ex-ministra mantenha o cargo de deputada, especialmente enquanto o caso Banif está na ordem do dia.

The one billion dollar question

Cada vez que somos confrontados com mais e mais casos de corrupção e ausência de conduta ética por parte de indivíduos que têm poder económico e político, “the one billion dollar question” coloca-se: O poder corrompe ou atrai quem mais se deixa corromper? Porque é que pessoas bem-sucedidas, abastadas financeiramente, com poder político, se envolvem em casos de corrupção, branqueamento de capitais e outros comportamentos menos éticos? Será que este comportamento menos ético é uma escada que permite chegar a posições de topo ou são as posições de poder que tendem a corromper os indivíduos ou, pelo menos, revelar o seu lado menos moral?

Não é fácil dar resposta a esta questão apenas analisando os dados relativamente a casos de corrupção, quer em Portugal, quer em outro países. É difícil separar os vários motivos que estão na base de comportamentos corruptos quando não existe um controlo por parte dos investigadores sobre quem ocupa um determinado cargo. Separar então o efeito dos cargos de poder do carácter dos indivíduos que os ocupam não é algo fácil com os dados que existem. Sendo assim, ressalto a importância da realização de experiências nas quais o investigador pode controlar o grupo de indivíduos que nelas participa, isolando possíveis explicações para comportamentos menos éticos. Em particular, destaco um estudo experimental recentemente publicado que parece indicar que o poder, de facto, conduz a comportamentos menos éticos.

Neste estudo foram constituídas várias equipas de dois jogadores que participaram numa série de jogos. Nos primeiros jogos, jogos de memória ou de identificação, os jogadores em cada equipa jogaram uns contra os outros. Os vencedores em cada equipa foram premiados com um par de auscultadores. Numa segunda fase, novas equipas foram formadas e um novo jogo foi jogado onde a finalidade era dividir uma quantia de dinheiro entre o jogador e o seu adversário.

A cada jogador foi pedido para lançar um par de dados de 6 faces cada. Por exemplo, se o resultado fosse igual a 7, o jogador e o seu oponente ficavam, cada um, com metade do dinheiro. Se o resultado fosse um 9, o jogador ficaria com a maior parte do dinheiro, comparativamente ao seu oponente. Um detalhe crucial neste jogo é que os investigadores não observaram o resultado do lançamento dos dados sendo apenas informados pelos próprios jogadores deste resultado. Deste modo, os jogadores poderiam dizer a verdade ou mentir. Mesmo sem a possibilidade de observar a veracidade de cada resultado, os investigadores, sabendo que os dados não estavam viciados, esperavam uma distribuição uniforme dos resultados, pois todos os números tinham igual probabilidade de sair. Na média, seria esperado que o resultado fosse então 7.

É interessante verificar que os vencedores da competição reportaram, em média, valores mais altos, por volta de 9, enquanto os perdedores reportaram valores à volta de 7. E, ao que parece, não é o facto de meramente ganhar que leva os indivíduos a mentir, mas ganhar em competição. Nas experiências em que, em vez de competir nos primeiros jogos, o vencedor foi determinado aleatoriamente, não foi observada qualquer diferença no comportamento ético entre vencedores e perdedores.

O que se pode retirar desta experiencia?

A competição, numa economia de mercado, é vista como um elemento fulcral para a promoção do crescimento económico, progresso tecnológico, criação de riqueza, mobilidade social e igualdade. A competição é extremamente valorizada e usada em vários sistemas de incentivo de forma a promover a meritocracia. Muitos dos que chegaram a posições de poder, conseguiram-no por mérito, porque no jogo da vida venceram mais do que perderam. Mas há que não negligenciar um possível lado negro da competição. Se competir e ganhar nos torna mais propensos a mentir, por exemplo, porque inconscientemente achamos que temos mais direito em fazê-lo, então estamos também a promover comportamentos menos éticos que por sua vez podem travar o crescimento económico, a mobilidade social e a igualdade.

O carácter de cada um de nós consiste no conjunto de qualidades e defeitos que possuímos, resultado de uma adaptação constante às condições sócio-económicas, sendo esta interação com o meio que nos rodeia determinante para a nossa conceção e conduta ética e moral. O que esta experiência revela é que indivíduos com características semelhantes (o grupo de vencedores e perdedores é semelhante, por exemplo, no que respeita a preferências sociais) comportam-se de forma diferente quando vencem um jogo simples e ganham um mero par de auscultadores. Qualquer extrapolação para a vida real, onde os jogos são bem mais difíceis de ganhar e onde se podem ganhar milhões, fica ao critério do leitor.

Schurr, A. and Ritov, I. (2016). Winning a competition predicts dishonest behavior. The Proceedings of the National Academy of Sciences. Vol 113, no 7.