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Expresso

Quem compra mais caro e vende mais barato, homens ou mulheres?

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A desigualdade de género é um facto, ao nível salarial, na sub-representação das mulheres em altos cargos de direção, na divisão do trabalho doméstico e prestação de cuidados à família. Mas estas desigualdades não se cingem apenas ao mercado de trabalho. Apesar de menos documentadas e carecendo de maior investigação, ao que parece, as desigualdades no mercado de bens e serviços persistem.

Discriminação de preços, fora da lei, mas persistente

Enquanto consumidoras, as mulheres pagam por vezes mais por produtos “femininos” que em tudo são semelhante ao seu equivalente masculino, variando, muitas vezes, apenas no rótulo ou na cor. Facto que foi confirmado pelo Instituto de Defesa do Consumidor de Nova Iorque que publicou um estudo em Dezembro de 2015 onde foram analisados 794 produtos de 90 marcas que têm no mercado versões femininas e masculinas dos produtos. Em 35 categorias analisadas em apenas 5 a versão masculina era mais cara. Em média, a versão feminina custa mais do que a versão masculina em cerca de 7%, percentagem que sobe para 13% nos produtos de higiene. O que é consistente com uma análise feita pela University Central of Florida que analisou preços de desodorizantes e verificou que a versão feminina custava cerca de 30% mais do que a versão masculina, sendo que a única diferença era a fragância utilizada.

Quem faz melhor negócio?

A discriminação de preços pelo fator género é proibida, mas persiste. E torna-se ainda mais evidente em situações onde os preços são negociáveis. Vários estudos baseados em inquéritos, e alguns de cariz experimental, reportam que as mulheres, em geral, são menos propensas a iniciar negociações, relatam uma maior ansiedade em fazê-lo, são menos assertivas nas negociações e menos suscetíveis de perceberem situações passíveis de serem negociáveis. Esta diferença traduz-se em potenciais desvantagens, quer numa posição de oferta quer de procura de bens e serviços. Por exemplo, no mercado de trabalho, menores preferências negociais podem traduzir-se em desvantagens salariais. E no mercado de bens e serviços, enquanto compradoras, e sempre que exista margem para negociar, as mulheres, pela sua menor propensão para a negociação, seja ela real ou meramente condicionada, pagam preços mais elevados. É o que acontece, por exemplo, aquando da compra de um automóvel em segunda mão. Os vendedores, reconhecendo este facto, adicionado ao estereótipo que a mulher entende menos de carros, oferecem preços mais altos às mulheres, facto também já analisado em experiências de campo.

Um estudo recente de Tamar Kricheli-Katz Tali Regev publicado no Sciences Advances (publicação de acesso livre) a 19 de fevereiro deste ano, mostra as disparidades de género no mercado online nos Estados Unidos, mais especificamente, nas transações dos 420 produtos mais populares realizadas no eBay entre 2009 e 2012. O estudo debruça-se sobre as diferenças no comportamento de mulheres e homens enquanto vendedores privados (isto é, que não estão classificados como uma loja comercial), enquanto compradores e nos resultados finais das transações. Primeiro, há a destacar que o estudo mostra que há menos vendedoras do que vendedores. As mulheres representaram apenas 23% dos vendedores particulares. Segundo, as mulheres tendem a ter menos experiência como vendedoras, mas melhor reputação. Terceiro, as mulheres estão mais representadas em leilões de produtos mais baratos, os quais começam com um preço inicial mais baixo. Quarto, nos leilões em que os mesmos produtos são vendidos por homens e mulheres, estas tendem a solicitar um preço inicial mais elevado e estabelecem, em termos proporcionais, um maior preço de reserva, pagando, por isso, uma maior taxa ao eBay. Este facto pode ser explicado pelo maior nível de aversão ao risco por parte das mulheres, o que está largamente identificado em experiências laboratoriais.

Quanto aos resultados das transações, os resultados mostraram que as mulheres recebem um número menor de ofertas e preços finais mais baixos do que os homens quando igualmente qualificados como vendedores dos mesmos produtos. Em média, as mulheres recebem cerca de 80 cêntimos por cada dólar que um homem recebe pela venda de um produto novo idêntico e 97 cêntimos por vender o mesmo produto usado. Por último, as mulheres, enquanto compradoras acabam por pagar 3% mais do que os homens para produtos semelhantes.

O reverso da medalha em sociedades não patriarcais

O estudo acima mencionado a par com outras experiências laboratoriais e de campo mostram que as mulheres negoceiam e vendem de forma menos agressiva e estão sub-representadas em alguns contextos (nomeadamente no mercado online). Esta desigualdade pode ser explicada pela existência de diferentes preferências de homens e mulheres, preferências, que por sua vez, podem ter percursores culturais, ou seja, homens e mulheres são criados de forma diferente e, como resultado, as suas preferências são moldadas em função dessas diferenças. Além disso, podem assentar em aspetos evolutivos, nomeadamente diferenças biológicas. Por forma a estudar qual destas explicações alternativas pode estar na origem das diferentes preferências entre homens e mulheres, um grupo de investigadores norte-americanos e europeus, no qual me incluo, conduziu experiências comportamentais, tanto de laboratório, como de campo, e quer em sociedades matrilineares (onde a herança fica nas mãos da filha mais nova) como em sociedades patriarcais, no nordeste da Índia. A experiência de campo estudou a negociação num mercado real, ao ar livre, onde foram observados os comportamentos de vendedores de ambas as sociedades, no que respeita à transação de um produto comum, o tomate. A segunda experiência consistiu na criação de um ambiente artificial, controlado, semelhante a um laboratório, onde foi implementado um jogo de negociação alternada. Neste jogo, o vendedor ou comprador anuncia um preço inicial, para um bem hipotético, que é alternativamente negociado até a transação ser terminada.

Os resultados mostram uma ausência de mulheres vendedoras da sociedade patriarcal no mercado e mostram que as mulheres vendedoras da sociedade matrilinear são melhores

negociadoras, acabando por lucrar mais do que os homens desta mesma sociedade. Resultados semelhantes são obtidos no jogo de negociação alternativa. As mulheres ganharam mais do que os homens na sociedade matrilinear e menos do que estes na sociedade patriarcal.

As desigualdades entre género persistem, quer no mercado de trabalho e no mercado de produtos, quer na esfera doméstica. A discriminação de preços com base no género é, em muitos casos ilegal. Veja-se, por exemplo o caso das companhias de seguro que não podem cobrar prémios diferentes a homens e mulheres. No entanto, em vários mercados, estas diferenças persistem, e parecem ser, em geral, mais penalizadoras para as mulheres. Estas não só ganham menos, como pagam, por produtos idênticos, muitas vezes bastante mais. E mais, enquanto vendedoras, nomeadamente online, vendem a um preço inferior. Por muito que queiramos tapar os olhos e esconder esta realidade por detrás de fatores genéticos e evolutivos, a realidade parece ser outra. A sociedade, a cultura, a forma como somos educados, quer enquanto homens quer enquanto mulheres, parece pesar nestes resultados.