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&conomia à 6ª

Abolição dos TPC: quem perde e quem ganha

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Há uns dias foi notícia que os trabalhos para casa (TPC) tradicionais e obrigatórios foram abolidos no agrupamento de escolas de Carcavelos nos primeiros anos do ensino básico. Esta medida faz parte de um conjunto de outras tantas que têm vindo a ser implementadas e é parte de um projeto que teve início no ano letivo de 2003-2004. Os seus objetivos principais são o combate ao insucesso e à indisciplina e a promoção de uma aprendizagem mais autónoma e menos autoritária, dando às crianças mais tempo para brincar.

Um assunto que divide pais e investigadores

A abolição dos TPC nos primeiros anos de ensino é um assunto que divide a sociedade, havendo por um lado quem os diabolize e por outro quem enalteça exacerbadamente a sua importância pedagógica. Mas a verdade é que não existem estudos que claramente provem que uma visão ou outra esteja certa. De facto, não há uma investigação que encontre uma correlação positiva e significativa entre o desempenho escolar das crianças no primeiro ciclo de ensino e mais ou menos TPC (ou mesmo nenhuns). E mesmo ao nível do ensino secundário, os resultados não são muito persuasivos. Por exemplo, estudos que utilizam dados de alunos de escolas secundárias norte-americanas apontam para uma correlação positiva, porém fraca, entre o tempo despendido na realização de TPC e os resultados estandardizados de alguns exames, sendo o impacto mais relevante na matemática.

Em relação ao impacto do tempo despendido nos TPC na saúde física e mental dos estudantes, não existem estudos relevantes para os primeiros anos de ensino. No entanto, um estudo realizado por investigadores da Stanford Graduate school of Education, publicado no Journal of Experimental Education, que inquiriu alunos de 10 escolas secundárias da Califórnia com elevado sucesso escolar, indica uma relação positiva entre mais de duas horas de TPC por dia e sintomas como o stress, dores de cabeça, exaustão, poucas horas de sono, perda de peso e problemas digestivos. Cerca de 44% dos 4317 alunos inquiridos disse sofrer de três ou mais sintomas.

O cenário é outro no que respeita ao ensino superior

No ensino superior o cenário parece ser outro, quer no que respeita ao tipo de investigação, quer em termos das conclusões que dela se podem retirar. Existem estudos que se baseiam em experiências de campo que apontam para efeitos positivos da existência e realização de trabalhos de casa. Por exemplo*, numa Universidade da Carolina do Norte foi realizada uma experiência onde, considerando 423 alunos da disciplina de microeconomia, foram criados dois grupos aleatoriamente. A um dos grupos foi requerido TPC frequente aos alunos, e ao outro grupo (o grupo de controlo) não foi exigido qualquer trabalho de casa. Os resultados mostraram um efeito positivo dos TPC, quer no desempenho escolar, quer na taxa de retenção na disciplina, ou seja, foram observadas menos desistências. Obviamente que não se podem extrapolar os resultados quer do ensino secundário, quer do ensino superior, para o ensino básico, mas seria importante conduzir mais estudos de cariz experimental no ensino básico.

TPC no ensino básico: o aprofundar ou aligeirar de desigualdades?

Apesar da escassez de resultados científicos que comprovem ou desacreditem os benefícios dos TPC no ensino básico, há quem advogue o seu fim argumentando que os TPC ampliam as diferenças sociais, fruto das desigualdades socioeconómicas. Mais precisamente, as crianças provenientes de classes mais favorecidas, porque têm, geralmente, encarregados de educação com um maior nível de escolaridade e uma maior disponibilidade para os ajudar, direta ou indiretamente, nos trabalhos de casa, saem beneficiadas face a crianças de famílias menos favorecidas e com menor apoio extraescolar. No entanto, não é claro que a existência de TPC agrave esta desigualdade e acredito até no contrário: a sua abolição pode agravar o fosso social entre alunos.

O TPC obrigatório poderá ser pouco relevante para as crianças que vivem num ambiente familiar com mais apoio, disciplina e atividades extracurriculares, e onde os seus encarregados de educação seguem mais atentamente e frequentemente o seu desempenho. Mas nas famílias onde este este apoio não existe, ou é diminuto, os trabalhos de casa podem funcionar como um instrumento de responsabilização educativa, ou seja, a sua existência e obrigatoriedade poderão imputar aos encarregados de educação uma sensação de maior responsabilidade em seguir o desempenho escolar das crianças, nem que seja ao controlarem se estas fizeram ou não os trabalhos de casa. Mais, os TPC permitem também dar a conhecer aos professores a realidade que os alunos enfrentam em casa quanto ao nível de apoio escolar que recebem por parte da família. Através de uma escolha correta de determinados TPC, os professores conseguem perceber quais os alunos que tiveram, e os que não tiveram, ajuda, e usar esta informação para providenciar meios de compensação a alunos menos favorecidos, diminuindo assim as desigualdades. Desta forma, os TPC podem funcionar como uma ponte de ligação permanente entre o professor, o aluno e os encarregados de educação, permitindo assim obter informação quer do desempenho escolar do aluno, quer do envolvimento das suas famílias neste processo.

O sucesso escolar é multidimensional, assim sendo, a existir, o efeito dos TPC não será certamente igual para todas as crianças. Por muito interessante que a experiência do agrupamento de escolas de Carcavelos seja, ao que parece com resultados positivos, há que não esquecer que Carcavelos não é a Damaia, Sernancelhe, ou Rabo de Peixe, nos Açores, onde há mais pobreza e desigualdades económico-sociais. Nas escolas do agrupamento de Carcavelos, o envolvimento dos encarregados de educação no desempenho escolar das crianças, a imposição de rotinas e disciplina em casa, muito provavelmente existe em maior grau que em outras localidades e independentemente da obrigatoriedade dos trabalhos de casa. Nestas famílias, onde muitas vezes as crianças estão nas escolas a tempo inteiro e onde têm bastantes atividades extracurriculares, realmente o que falta é tempo para brincar. Noutras famílias, com outras realidades socioeconómicas, as crianças por vezes não beneficiam do mesmo acompanhamento e são deixadas ao deus-dará, por vezes com tempo demais. Para estas, o TPC obrigatório poderá ser um mecanismo de criação de hábitos e rotinas e de priorização de tarefas, o que, no limite, poderá ter impactos muito além dos possíveis efeitos positivos no aproveitamento escolar.

*Ver “The Role of Homework in Student Learning Outcomes: Evidence From a Field Experiment", um estudo de Andrew Grodner e Nicholas G. Rupp, publicado no Journal of Economic Education em 2013.