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Lopetegui fora. Mais do mesmo

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Julen Lopetegui foi afastado do Futebol Clube do Porto. Mais um treinador despedido a meio da temporada. Os resultados estavam aquém das expectativas e os fãs nunca nutriram por Lopetegui um amor de perdição. E se até Mourinho, o “special one”, foi recentemente despedido do Chelsea antes do fim do campeonato inglês, porque não pode qualquer outro treinador ser despedido no decorrer da época?

Só que despedir um treinador a meio da temporada, como quem muda uma lâmpada fundida, na esperança que o próximo treinador traga a tão esperada luz e resultados promissores, não tem, na realidade, grande resultado. Estudos científicos assim o confirmam e muitos de nós, quer académicos, quer jornalistas, que escrevem nos meios de comunicação social, não nos cansamos de o repetir.

Despedimento: um instrumento sem efeito

O despedimento é um instrumento que os clubes, e demais empresas, têm para tentar atingir resultados que estejam aquém das suas expectativas. Deste modo, o despedimento pode ser visto como um incentivo negativo, uma penalização máxima, no caso de os resultados não serem os esperados. Por outro lado, pode também ser utlizado para despedir um treinador cuja capacidade para liderar e treinar o clube era desconhecida aquando da sua contratação. Seja porque razão for, é verdade que os treinadores são despedidos quando os resultados do clube estão consideravelmente abaixo dos objetivos estabelecidos. No entanto, não é claro que a mudança de treinador traga os resultados esperados. E mesmo quando os resultados esperados aparecem, na maioria das vezes não resultam da mudança de treinador, mas são apenas consequência da chamada “reversão para a média”.

No futebol, por muito boa que a equipa seja esta não ganha sempre. Na média, equipas no topo da tabela ganham mais do que perdem, mas perdem algumas vezes. Acontece que se os resultados negativos se sucedem jogo após jogo, enfurecendo os fãs, acionistas e stressando ainda mais a equipa e o treinador, quando o treinador muda, parte dos resultados positivos – quando aparecem – são mais um retorno à média de resultados da equipa do que propriamente por efeito da mudança de treinador.

Numa investigação por mim realizada em que uso dados para a primeira liga portuguesa entre 1999 e 2005* e comparo equipas com desempenho semelhante mas com diferentes opções quanto a manter ou despedir o treinador, mostro que as equipas que escolheram mudar de treinador a meio da temporada não tiraram qualquer benefício dessa mudança. Assim sendo, despedir um treinador não tem efeito direto nos resultados da equipa. Pelo contrário: tem um efeito negativo no longo-prazo. Mais especificamente, as equipas que despediram o treinador depois de uma série de maus resultados, recuperaram, sobretudo devido a uma reversão à média, mas algumas mais lentamente do que as que não despediram o treinador. Mais, tiveram de suportar os custos monetários e não monetários associados à mudança de treinador.

Outros estudos, usando dados para outras ligas de futebol, mostram resultados semelhantes. Por exemplo, Bas ter Weel da Universidade de Maastricht, na Holanda, com dados da primeira liga holandesa entre 1986 e 2004 mostrou que a mudança de treinador não conduziu à melhoria de resultados. Sören Salomo e Kai Teichmann, da Universidade de Kiel, e Selman Kaldiroglu, da Universidade de Trinity, no Texas, concluíram o mesmo para a primeira liga alemã e turca, respetivamente.

Porque despedir?

Mas se é certo e sabido que não vale de muito mudar de treinador a meio da temporada, porque é que os clubes o fazem? Possivelmente, porque precisam de responsabilizar alguém pelos maus resultados, ou seja, encontrar o tal “bode expiatório”, colocá-lo fora do clube e encontrar um novo treinador que milagrosamente dê esperança aos fãs e acionistas.

Ao finalizar este texto, leio rumores (serão mais desejos do que outra coisa) que dão conta de que Mourinho poderá regressar ao Porto. Outra informação, que parece ser mais realista, é que o Porto já está em negociações com André Villas-Boas. Seja Mourinho ou Villas-Boas o novo treinador este terá não só a reversão da média do seu lado, como a paixão dos fãs. É preciso, no entanto, que os dirigentes e adeptos tenham também a consciência que grandes expectativas trazem consigo o risco de grandes deceções. É assim em qualquer paixão, e assim o é no futebol.