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&conomia à 6ª

2015: Céu nublado com algumas abertas...

Aurora Teixeira

Na sua mensagem de Natal, Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal refere, metaforicamente, que os portugueses deixaram de enfrentar um horizonte de "acumulação de nuvens negras"... "o primeiro Natal desde há muitos anos em que temos o futuro aberto diante de nós". Não se fez esperar a reação dos partidos da oposição, acusando Passos Coelho de tecer uma "mensagem eleitoral" (PS), usar "meias verdades" (BE), e reiterando que "essas nuvens negras vão continuar" (PCP).

É certo que, sobretudo desde 2011, a vida da maioria dos Portugueses tornou-se bastante difícil: desemprego (ou ameaça de desemprego); perda progressiva de 'almofadas' sociais (os pais/avós têm cada vez mais dificuldade em ajudar filhos/netos pois o poder de compra dos seus salários/pensões reduziu-se); empregos (melhor dizendo, estágios) caracterizados por um nível crescente de precariedade e pouca/nenhuma margem de progressão profissional; diminuição dos apoios sociais (e.g., subsídio de desemprego, rendimento social de inserção); fluxos de emigração consideráveis, envolvendo jovens e menos jovens e pessoas pouco e muito qualificadas; crescente desigualdade de rendimentos e aumento do risco de pobreza.

Mas, é da mais elementar honestidade intelectual reconhecer que a vasta maioria destes problemas não decorrem, infelizmente, em exclusivo, do exercício de uma legislatura (seja qual o governo que esteja em exercício). São problemas estruturais relativamente aos quais tem sido notória a incapacidade coletiva na resolução dos mesmos.

Esta incapacidade coletiva responsabiliza todos nós: governos (todos os que alternaram o 'poder' nestes 40 anos de democracia), oposição (o constante 'bota-abaixo', a incapacidade de apresentação de medidas construtivas/caminhos alternativos exequíveis), empresas/organizações (sobretudo as muitas que teimam em 'viver' a reboque do Estado que tanto criticam), sindicatos (com a banalização de greves e a procura demagógica da preservação de poder, protegendo, frequentemente, os insiders, sem consideração devida pelo flagelo do desemprego), e cidadãos em geral (não obstante a resiliência que caracteriza os portugueses, é frequente o atribuir aos outros a 'culpa' pelos insucessos/ falhas/incapacidades pessoais e profissionais; o concentrar as energias nos problemas em vez da respetiva resolução; a 'visão curta'/incapacidade de reconhecer na educação a via para o desenvolvimento; a inaptidão para substituir o 'desenrascanço' pelo desempenho organizado, com brio e esforço do trabalho, qualquer que seja a tarefa que se desempenhe...).

Dados os desequilíbrios (interno e externo) acumulados pela economia portuguesa, ditando, em 2011, a necessária e, a meu ver, inescapável, intervenção da Troika, seria difícil/impossível um outro cenário que não o da austeridade. [Se, num dado momento, produzo menos do que consumo (independentemente das razões para tal), estou endividada e no mercado não há quem me empreste dinheiro a uma taxa de juro aceitável, necessariamente terei que diminuir o meu nível de consumo, passando a viver pior. Excluindo a utopia dos credores benevolentes, não conheço (admito a minha ignorância) outra 'receita' para reequilibrar contas e tentar um caminho mais sustentável.]

Reconheço que os muitos e pesados sacrifícios que a generalidade dos portugueses tem sofrido poderiam ter sido mais atenuados (embora não completamente evitados) se as nossas instituições (e.g., justiça, partidos políticos, órgãos reguladores) funcionassem de forma (mais) capaz - a corrupção, o compadrio, a promiscuidade do público e privado continuam a ser um cancro que corrói a confiança que os cidadãos deveriam depositar nas suas instituições.

Em qualquer dos casos, o ano que agora cessa (2014) dá lugar a um novo (2015), que embora nublado (cf. notas entre parênteses retos), apresenta algumas 'abertas':

- Crescimento "moderado" da atividade económica (segundo o Boletim Económico de Inverno do Banco de Portugal, estima-se que o Produto Interno Bruto em 2015 cresça, em média, 1,5 por cento).

[Note-se, no entanto, que este crescimento económico está muito dependente da aceleração da procura externa, nomeadamente da área do euro, que, por sua vez, depende do potencial benefício das medidas de política monetária não convencional recentemente anunciadas pelo Banco Central Europeu.]

- Melhoria no nível de endividamento público (de acordo com o Destaque do INEde 23 de dezembro de 2014, a necessidade de financiamento das Administrações Públicas diminuiu para 4,3% no 3º trimestre de 2014).

[Não obstante, a consolidação orçamental tem sido baseada, sobretudo, no aumento da receita fiscal e não na redução da despesa pública. A consolidação orçamental orientada pelos impostos tem a vantagem de ser mais rápida, mas a desvantagem de não ser sustentável e/ou por em risco objetivos de crescimento e equidade. A redução via despesa pública poderá, no entanto, envolver, no curto/médio prazo, despedimento de funcionários públicos, o que, em si mesmo, contribui para o agravamento do já sério problema de desemprego]

- Melhoria (face ao período anterior a 2011) da competitividade externa da economia portuguesa, prevendo-se a manutenção dos excedentes na balança corrente e de capital (2.6% do PIB em 2014 e 2.8% em 2015) alcançados a partir de 2012.

[Importante notar que o saldo da balança corrente e de capitais em 2014 foi positivamente influenciado pela redução significativa do défice da Balança de Rendimentos, a que não é alheia a forte descida dos juros das dívidas soberanas que se observaram não apenas no caso de Portugal mas também nos da Grécia, Irlanda, Itália e Espanha.]

 

Para um país/ano 2015 'possível', deixo-vos com um "poema possível' de José Saramago, "Passado, Presente, Futuro" (in "Os Poemas Possíveis")

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:

Mil camadas de pó disfarçam, véus,

Estes quarenta rostos desiguais.

Tão marcados de tempo e macaréus.

 

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:

Rã fugida do charco, que saltou,

E no salto que deu, quanto podia,

O ar dum outro mundo a rebentou.

 

Falta ver, se é que falta, o que serei:

Um rosto recomposto antes do fim,

Um canto de batráquio, mesmo rouco,

Uma vida que corra assim-assim.