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Longe da vista, longe do coração

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Ainda não me tinha pronunciado publicamente sobre o ataque terrorista em Paris, nem mesmo sequer numa qualquer plataforma de social media. Apeteceu-me ter direito ao silêncio, ouvir músicas dos Zaz e dos Noir Désir, ouvir francês apenas. Soube do ataque pela rádio e não segui particularmente as notícias que se seguiram. Mas bastou-me para que sentisse, como que na pele, o horror que terão sentido os que morreram, o terror dos feridos, o medo dos parisienses. Não me senti manipulada por qualquer meio de comunicação social ou por exageros de informação e, mesmo assim, senti estes ataques de forma diferente dos ataques na Síria, no Líbano, no Iraque ou no Irão (por mais que estes mereçam da minha parte obviamente o mesmo veemente repúdio). E como eu, muitos de nós. As bandeiras da França por todo o mundo ocidental, a vestir monumentos, a pintar paredes, nas imagens digitais dos carros da Uber, nas fotos de perfil no Facebook, são o espelho disso.

Existe alguma verdade na expressão portuguesa “longe da vista, longe do coração”, ou longe da mente, como a indica em inglês a expressão “out of sight, out of mind”. Mesmo assim, muitas foram as vozes de indignação que pretenderam lembrar-nos que o valor da vida humana é igual em qualquer lugar do mundo, e que não parece ser isso que pensam os meios de comunicação social ou o que refletem as demonstrações de pesar e de apoio à França nos social media.

É verdade que em absoluto o valor da vida humana não deve ter cor, género, nacionalidade, religião ou estatuto social. Mas para cada um de nós a vida dos que nos são mais próximos tem um valor diferente. No limite, considerem-se as relações familiares, e recordemos uma famosa frase do evolucionista John Haldane: “Estou disposto a dar a vida por dois irmãos ou por oito primos”. Para a maioria de cidadãos, por exemplo, portugueses, as vítimas de Paris são pessoas anónimas, nem irmãos nem primos. Mas entre tantos seres anónimos no mundo, aqueles sentimo-los mais próximos. Porque essa proximidade afetiva é fruto da distância física e cultural. Não é preciso relembrar a História portuguesa para mostrar que as nossas relações com a França vêm de muito longe. Que há imensos portugueses emigrados em França, que há muitos franceses com descendência portuguesa. A proximidade é também criada com a noção de pertença a um mesmo grupo, facto que tem sido fortalecido com a União Europeia.

A proximidade fortalece a empatia e o altruísmo

A empatia, que se define como a capacidade para sentir o que sente o outro caso estivéssemos na sua situação, está intimamente ligada à noção de altruísmo, ou seja sentir um interesse genuíno pelo bem-estar do outro. A empatia que nos leva a sentir a dor ou sofrimento alheio é uma resposta emotiva aos problemas e emoções dos outros e não uma resposta intelectual. Daí ser difícil controlar as reações causadas pela proximidade afetiva.

Há vários estudos que abordam as preferências sociais e empatia, desde a psicologia, a neurociência e a neuroeconomia, à economia experimental e comportamental, porquanto se reconhece cada vez mais serem estes temas importantes para um desenvolvimento e crescimento económico sustentável. E muitos destes estudos analisam a interação entre comportamentos pró-sociais e proximidade. Por exemplo, experiências laboratoriais e de campo que utilizam certos jogos para estudar comportamentos de altruísmo, reciprocidade, cooperação, confiança, mostram que estes comportamentos são enaltecidos quando existem relações de proximidade e amizade entre os participantes. Mas o mais interessante é observar que mesmo quando os participantes são completamente anónimos, pequenas alterações que criam uma mera perceção de proximidade, têm efeitos positivos nos níveis de altruísmo e empatia. Por exemplo, a mera visualização de uma foto do outro participante faz aumentar níveis de altruísmo e cooperação.

Mais, a noção de pertença a um determinado grupo contribui para aumentar comportamentos pró-sociais nestas experiências. Por exemplo, experiências de campo na Índia, onde numa das condições os participantes são anónimos mas de diferentes grupos étnicos, mostram níveis de altruísmo e cooperação menores quando comparados com a situação em que todos pertencem ao mesmo grupo étnico. Em laboratório, pequenas modificações que alteram a noção de pertença a um grupo, como por exemplo, simplesmente criar um nome para o grupo a que pertencem os indivíduos, faz aumentar níveis de altruísmo e cooperação. Mais, estudos na área da neuroeconomia, onde são recolhidas imagens cerebrais de participantes nestas experiências, mostram que quando os indivíduos jogam com quem têm maiores relações de proximidade, são ativadas áreas cerebrais relacionadas com a satisfação e a sensação de recompensa. Sendo assim, ao termos, enquanto seres humanos, uma pré-disposição para a empatia e para nos preocuparmos com o outro, sentimos uma maior satisfação quando isso sucede com quem de alguma forma não nos é estranho, por muito anónimo que seja.

Para além da empatia, a proximidade também influencia o medo

O facto de demonstrarmos uma maior indignação contra e condenarmos mais os atos terroristas em França ou no mundo ocidental comparativamente a atos terroristas em Beirute, por exemplo, não se deve apenas a uma relação entre proximidade e empatia, mas também entre proximidade e medo. Os ataques em Paris criaram em nós a sensação de que isto “não acontece só aos outros”, aos que que vivem em zonas de guerra, no meio de conflitos religiosos. A noite de 13 de Novembro das vítimas podia ser a noite de qualquer um de nós. Era sexta-feira, quando vamos jantar fora, assistir a um jogo de futebol, ou um qualquer espetáculo ou concerto. As imagens de desespero no Bataclan (mas não necessariamente os ataques) podiam ter tido lugar em qualquer cidade europeia. Esta identificação, esta proximidade, exacerba a sensação de risco. Por exemplo, por muito que possamos sentir pesar por peregrinos que morrem esmagados em Meca, muito dificilmente sentiremos medo que tal nos venha a acontecer. O mesmo já não será verdade se soubermos da queda de uma bancada de futebol num qualquer estádio europeu.

Seja por empatia, seja por medo, a proximidade, física e cultural, explica em grande parte as demonstrações de apoio à França, as reações de condenação a atos terroristas e o exigirmos mais segurança. Não é demais repetir que o valor da vida humana é igual em qualquer lugar do mundo. Um ato terrorista é condenável em qualquer lugar do mundo, mas quem não vê é como quem não sente.