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Expresso

“Uma lição de vida para todos”?

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Nos primeiros dias após as cheias em Albufeira, as seguradoras portuguesas receberam mais de mil participações correspondendo a 10 milhões de euros de valores cobertos: 7,8 milhões por danos em estabelecimentos comerciais e industriais, 2,4 milhões de euros por danos em habitações e 300 mil euros por danos em cerca de 150 automóveis.

Apesar destes milhões de euros em prejuízos estarem cobertos, muitos outros milhões não estão cobertos por apólices que protegem contra este tipo de desastres naturais, o que levou o então ministro da Administração Interna, Calvão da Silva, a pregoar a “fúria demoníaca da natureza” e as zangas divinas perante a humanidade, assim como a exaltar a importância de “reservar sempre um bocadinho para ter um bocadinho seguro”, ou seja, em vez do cidadão ou comerciante gastar o pé-de-meia “mais aqui ou além, pagar um prémio de seguro”. Estas palavras fizeram com que o então ministro fosse visto tanto como pregador como angariador de seguros.

É verdade que o discurso em galochas de Calvão da Silva foi trágico e cómico, mas não é menos verdade que muitos indivíduos subestimam a ocorrência de determinados desastres naturais e os custos de eventuais calamidades. E também não é menos verdade que em Portugal chove todos os anos, apesar de acharmos que não, e que as inundações são frequentes por diferentes pontos do país, mas não necessariamente sempre na mesma zona. Enquanto o seguro de habitação é obrigatório para contrair um empréstimo, a cobertura adicional contra inundações não é obrigatória e muitos escolhem não o fazer.

Obviamente, a decisão de fazer um seguro contra desastres naturais ou outros acidentes depende do grau de aversão ao risco de cada indivíduo. Se a decisão de não comprar seguro for racional, ou seja, levar em consideração quer a probabilidade dos eventos ocorrerem, quer as suas consequências, e em caso do evento indesejável acontecer isso não gerar arrependimento, não há inconsistência alguma. Mas na maioria das vezes as pessoas demonstram arrependerem-se e os elevados custos materiais e financeiros são normalmente subestimados, simplesmente porque a probabilidade, objetiva ou percecionada, de acontecer uma calamidade, é baixa.

O problema é que, em geral, quando decidimos adquirir ou não um seguro que nos protege contra acidentes ou desastres naturais tendemos a acreditar que tais desaires não nos acontecerão a nós, somente porque não ocorreram até ali. Mas, curiosamente, e não raras vezes, a perceção e a decisão mudam imediatamente a seguir a uma calamidade. Quem não tem seguro desejaria que estivesse segurado, e muitos decidem mesmo comprar seguros adicionais ou mudar a cobertura das apólices. Como diz o ditado, “casa roubada, trancas à porta”. No entanto, se passados alguns anos não ocorrer qualquer desastre muitos desistem de pagar o prémio de seguro, por o consideram uma perda de dinheiro.

Este comportamento revela que um seguro é visto como um investimento e não como uma proteção. Ou seja, os indivíduos compram seguro para maximizar o montante a “ganhar” em caso de acidente e não como uma medida de proteção contra as perdas decorrentes de um acontecimento indesejável. Assim sendo, há que convencer os indivíduos a ‘celebrarem’ a não ocorrência de eventos indesejáveis sem que a ‘euforia dessa celebração’ os leve a desistir do seguro.

É bastante curioso, no entanto, notar que em outras situações os indivíduos parecem sobrestimar pequenas probabilidades, como é o acaso de acidentes de avião. Antes de viajar, muitos indivíduos compram seguros quase por superstição, pensando que assim estarão a evitar que algo de mal lhes aconteça.

O que fazer então para corrigir eventuais inconsistências e enviesamentos e fazer com que os indivíduos olhem para o seguro mais como uma medida de proteção do que um investimento? Com certeza que não será dizendo que Deus se zanga e que as cheias de Albufeira foram uma “lição de vida para todos”. Estudos na área da economia comportamental mostram, por exemplo, que os indivíduos podem ser alertados a considerarem seguros contra certos desastres naturais com a simples alteração na apresentação dos riscos que enfrentam. Por exemplo, proprietários em zonas de risco de inundações são mais suscetíveis de fazer um seguro se forem informados que existe uma probabilidade de 0.20 de ocorrer uma inundação nos próximos 25 anos do que se forem informados que existe uma inundação em cada 100 anos. Matematicamente, não existe diferença, mas na nossa perceção existe. Quando ouvimos “100 anos” pensamos que não é connosco porque em 100 anos já cá não estamos e descuramos automaticamente a informação relevante sobre o risco. Ou seja, declarar Albufeira como zona de risco ajuda mas não chega, há que saber como comunicar esse risco.