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Expresso

A economia comportamental como instrumento político

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Há semanas que ando para escrever sobre um assunto que me é particularmente grato, mas a azáfama política por terras lusas têm justificado o seu adiamento.

A 15 de Setembro, o Presidente dos EUA, Barack Obama, assinou uma ordem executiva requerendo que todos os departamentos executivos e agências federais identificassem políticas, programas e operações onde fizesse sentido aplicar resultados e conclusões de estudos realizados no âmbito das ciências comportamentais, nomeadamente da economia comportamental, por forma a melhorar políticas públicas, quer ao nível dos resultados, quer dos custos. Mais, apelou para a importância de proceder à realização de experiências de campo e de avaliar o impacto das mesmas. Esta ordem executiva aparece um ano e nove meses depois da “Social and Behavioral Sciences Team” ter sido formada com vista a testar e a usar a economia comportamental como um instrumento de política. Do trabalho desta equipa saíram resultados muito interessantes e orientações concretas. E desde então, o recrutamento de mais especialistas nestas áreas para integrar o governo federal tem sido uma realidade.

No primeiro ano em funções, esta equipa das ciências sociais e comportamentais da Casa Branca teve como objetivo a aplicação de estudos existentes em pequenos programas por forma a conseguir avaliar rapidamente resultados, inferir sobre a eficácia de medidas e fornecer diretrizes. Estes programas basearam-se sobretudo em experiências de campo. Os primeiros resultados foram promissores. De acordo com John Holden, assistente do Presidente dos EUA para a ciência e tecnologia, “existem fortes indícios que a incorporação de princípios da economia comportamental melhora a vida das pessoas”.

Algumas experiências de sucesso

A maioria destas experiências foram conduzidas utilizando os sistemas de comunicação existentes geralmente usados pelas agências federais nas suas funções diárias. Diferentes projetos piloto testaram, por exemplo, modificações na linguagem e no formato de correspondência eletrónica e não eletrónica, e design de websites. O objetivo foi saber qual a forma mais eficiente de chegar a vários resultados, tais como, potenciar uma maior poupança para a reforma por parte das famílias, aumentar o número de famílias que se candidata a empréstimos para a educação, melhorar a compreensão por parte dos veteranos de guerra sobre os benefícios a que têm direito e diminuir o número de folhas usadas nas impressões feitas por trabalhadores federais, através da impressão dos dois lados do papel.

Uma experiência particularmente interessante foi a que foi realizada com vista a aumentar o número de inscritos no seguro público de saúde. Cerca de 700 mil pessoas haviam iniciado o processo online mas não o terminaram. Normalmente, enviar-se-ia uma carta a relembrar estes indivíduos do prazo e dos benefícios em aderir ao seguro. Em vez disso, foram enviadas oito versões diferentes aleatoriamente. Constatou-se que a versão com mais sucesso, ou seja a que levou a uma maior percentagem de processos terminados, foi a que incluiu uma fotografia de um funcionário federal a enviar a carta, assim como um calendário mostrando os dias que faltavam para completar o processo.

Uma outra intervenção a destacar considerou questionários, enviados por e-mail, que avaliam o grau de satisfação dos agentes federais que residem em casas do Estado. A taxa de resposta destes é em geral baixa. Na experiência foram enviados 96 mil questionários de hora a hora durante um dia. Verificou-se que os e-mails enviados muito perto da hora de almoço foram menos ignorados do que os enviados de manhã. Cerca de mais 1500 pessoas os leram.

Os Estados Unidos não foram pioneiros nesta iniciativa

Há que referir que os Estados Unidos não foram o primeiro país a ter uma equipa governamental que faz uso das ciências comportamentais e que conduz experiências de campo com vista à implementação de políticas. A Alemanha, o Reino Unido e a Austrália já tinham criado unidades de investigação que incorporam os princípios e metodologias da economia comportamental na governação. Mais, o Banco Mundial, a OCDE, e a Comissão Europeia têm publicado trabalhos que dão ênfase à importância de identificar e incluir aspetos comportamentais nas políticas socias e económicas.

Existe um reconhecimento crescente da importância da economia comportamental para a compreensão dos comportamentos e escolhas dos indivíduos em diversas áreas, tais como a saúde, nutrição, exercício-físico, poupança e planeamento para a reforma e risco financeiro. As medidas e políticas no sector público, e em última instancia os indivíduos, podem beneficiar muito deste conhecimento.

Dada a incerteza política nos próximos tempos, num futuro próximo será pedir demais que os políticos portugueses prestem a devida atenção à economia comportamental. Há lutas maiores, o poder, o défice, a dívida e os mercados, mas se nas entrelinhas houver tempo, acho que é o tempo de abrir os olhos e abraçar introdução de mais ciência comportamental na condução de políticas.